sábado, 21 de outubro de 2017

O Dilúvio de Noé – Foi global ou local? A resposta de Gênesis

Em dois artigos anteriores, postados aqui e aqui, ficou definitivamente provado que jamais houve um dilúvio global, tal como descreve a Bíblia nos capítulos 6-8 de Gênesis.  Em razão das evidências que são difundidas mais e mais, à medida que aumenta o conhecimento humano sobre o povoamento do planeta, a constatação de que há espécies endêmicas, e diversos outros fatores, tal como a falta de água suficiente para cobrir todos os mais altos montes do planeta Terra e a ausência de vestígios geológicos de um dilúvio global, mais e mais pessoas fazem uma releitura de Gênesis e afirmam que o relato bíblico pode referir-se apenas a um dilúvio local.


Nesta postagem considerarei um artigo do site Mentes Bereanas, cujas ideias centrais são atribuídas a Carl Olof Jonsson, que é autor do livro Os Tempos dos Gentios Reconsiderados.

Antes de tudo, é preciso deixar claro que Jonsson não descarta a possibilidade de um dilúvio global, mas apenas considera que a fraseologia de Gênesis admite também a possibilidade de que se trate apenas de um dilúvio local.


Um dilúvio por volta de 3500 a.C.

Em boa parte do artigo, Jonsson procura invalidar o conceito popular de que o império mesopotâmico, juntamente com suas lendas de dilúvio, era muito mais antigo. Feito isso, referente às lendas de dilúvios da Mesopotâmia, ele pôde afirmar:

As tradições bíblica e mesopotâmica do Dilúvio se correspondem fortemente, embora não se possa demonstrar que o relato bíblico foi derivado delas ou vice-versa. Elas dão evidência de terem uma origem comum e falam do mesmo evento.

Jonsson em nenhum momento cita a Epopeia de Gilgamesh, mas por duas vezes faz referência a Siusudra, o Noé de uma das lendas de dilúvio da Mesopotâmia, e deixa transparecer que, pare ele, o relato de Gênesis foi de fato inspirado num dilúvio da Mesopotâmia, que teria ocorrido por volta de 3500 a.C.

Em meu artigo anterior, deixei claro que lendas de dilúvio são comuns pelo mundo inteiro, e que a Mesopotâmia era o berço de muitas delas.  A razão desses dilúvios possivelmente era o resultado do degelo da última glaciação, que findava por volta de 8 a 12 mil anos atrás – muito cedo para gerar dilúvios tão tarde quanto por volta de 3500 a.C., fato que Jonsson reconhecerá logo adiante: Para ele, as águas vieram do oceano Índico, tal como mostrado nas imagens abaixo:





É neste ponto que Jonsson recorre a uma lenda de dilúvio sumério para explicar como a arca de Noé foi parar no monte Ararate – presumindo, naturalmente, que o relato sumério e a Bíblia estejam tratando de um mesmo evento.

A inundação a partir do Golfo Pérsico explicaria por que a arca de Noé (o Ziusudra sumério, o qual se diz ter vivido na cidade de Shuruppak, no sul da Mesopotâmia) foi levada para o norte, em direção às montanhas ou colinas na área do Ararate. Se o Dilúvio tivesse sido causado apenas pela água vinda de cima (chuvas) e acompanhasse as inundações dos rios Eufrates e Tigre, a Arca teria sido levada na direção sul, para o Golfo.

Por agora é oportuno perguntar como um dilúvio local, tal como o descrito acima, pôde ser suficiente para cobrir toda a Mesopotâmia, submergindo todos os montes, e fazendo a arca flutuar por 5 meses, até pousar em algum monte do Ararate; e não só isso, mas as águas também prevaleceram ao ponto de que, somente 14 meses após o início da inundação, foi possível Noé descer da arca – quando a lógica diz que qualquer afluxo de água sobre a Mesopotâmia, tal como um tsunami, logo resultaria em as águas fazerem o caminho de volta. A respeito disso, Jonsson escreve:

Como não se sabe exatamente o que causou o massivo movimento do mar para inundar a planície da Mesopotâmia, podem ter estado envolvidas circunstâncias desconhecidas para nós hoje, que impediram as águas de retornar muito rápido para o mar.


Reinterpretando Gênesis

Mas como conciliar um dilúvio local com as declarações bíblicas tais como as destacadas abaixo?

O dilúvio continuou por 40 dias sobre a terra, e as águas continuaram a aumentar e começaram a carregar a arca, e ela flutuava nas águas acima da terra. As águas prevaleceram e continuaram a aumentar muito sobre a terra, mas a arca flutuava na superfície das águas. As águas inundaram a terra de tal modo que todas as montanhas altas debaixo de todo o céu foram cobertas. As águas subiram até 15 côvados acima das montanhas[...]. Assim Ele exterminou da face da terra todos os seres vivos — os homens, os animais, os animais rasteiros e as criaturas voadoras dos céus. Foram todos eliminados da terra; somente Noé e os que estavam com ele na arca sobreviveram [...]. No sétimo mês, no dia 17 do mês, a arca pousou nas montanhas de Ararate. E as águas baixaram continuamente até o décimo mês. No décimo mês, no primeiro dia do mês, apareceram os cumes das montanhas (Gênesis 7:17-20, 23; 8:4, 5).

Jonsson sugere que se pode ler a palavra “terra”, não como se referindo ao planeta Terra, mas à região onde se vive; de acordo com ele, a palavra hebraica para “”montes” ou “montanhas” pode também ser traduzida como “colinas”, de modo que isso não exige que as águas tenham coberto montes tão altos como o Everest; e quando a Bíblia diz que a arca pousou “nas montanhas do Ararate”, isso não quer dizer que pousou no seu monte mais alto, de cerca de 5000 metros, mas em alguma “colina” próxima a ele.

Infelizmente, para Jonsson, nem todo o relato do dilúvio pode ser restrito a apenas um evento local. Por exemplo, tome o caso dos anjos que desceram do céu para se casar com as mulheres mais lindas da terra, o que teria gerado os violentos Nefilins, que, em parte, parece ter sido a razão de Deus ter decidido trazer o dilúvio. Sabe-se que desde aquela época a humanidade já estava presente por todos os continentes, inclusive nas Américas; portanto, não é razoável concluir que os anjos geraram sua prole nefasta apenas na Mesopotâmia, na vizinhança de Noé; somente se isso fosse verdade, é que justificaria um evento local.

Também os capítulos 6 a 8 de Gênesis contêm diversas declarações que são muito mais abrangentes, tais como as citadas abaixo:

De modo que Jeová disse: “Vou eliminar da face da terra os homens que criei, o homem junto com os animais domésticos, os animais rasteiros e as criaturas voadoras dos céus, pois lamento tê-los feito. ” (Gênesis 6:7).

Quando Deus diz que vai eliminar da face da terra os homens que criou, ele se refere a toda a humanidade, não apenas às pessoas restritas a uma dada região da terra.

Mas a terra tinha ficado arruinada à vista do verdadeiro Deus, e a terra estava cheia de violência.  Sim, Deus olhou para a terra e viu que estava arruinada; toda a humanidade havia arruinado seu caminho na terra (Gênesis 6:11, 12).

Quando Deus olha para a terra, nada nos sugere que ele olha apenas para uma dada região da terra, mas para todo o planeta Terra; e logo em seguida isso é confirmado, quando ele diz que toda a humanidade, não apenas as pessoas de uma dada região, havia arruinado seu caminho na terra.

A expressão “face da terra”, denotando a terra inteira, aparece 4 vezes no relato do dilúvio (Gênesis 6:1, 7; 7:4, 23), e “”toda a humanidade”, aparece 3 vezes (Gênesis 6:12, 13; 7:21).

E as próximas palavras de Gênesis, ao fazer uso da expressão “todo o céu”, são bem específicas sobre qual é de fato a dimensão do dilúvio.

As águas inundaram a terra de tal modo que todas as montanhas altas debaixo de todo o céu [não apenas o céu daquela região] foram cobertas (Gênesis 7:19).

Em seu livro Os Tempos dos Gentios Reconsiderados, páginas 242, 243, Carl Olof Jonsson acusa a Torre de Vigia de não fazer uma ”leitura natural” de Daniel 1:1, 2 e 2:1, uma vez que isso arruinaria a argumentação dela em defesa da data de 607 AEC; mas, igualmente, no que diz respeito ao dilúvio de Gênesis, a argumentação de Jonsson em defesa de um dilúvio local definitivamente não se pode chamar de “leitura natural”.

Claro está, pelo menos para mim, que a fraseologia de Gênesis especifica que o dilúvio foi global. A alternativa aceitável para se ter esse dilúvio como local é tirarmos Deus de cena e concluir que tudo é relatado como sendo do ponto de vista de alguém que acredita que o mundo inteiro, toda a humanidade, restringe-se apenas a todas as pessoas que ele conhece... .E é justamente isso que Jonsson afirma na conclusão de seu artigo

Se, como parece evidente, a raça humana nos dias de Noé estava restrita a uma área geográfica relativamente limitada – o que deve ter sido o caso se todas as pessoas haveriam de ficar cientes da pregação de Noé (2 Pedro 2:5) e saberem o que ele estava fazendo na construção da arca – então a inundação de toda aquela área constituiria realmente uma inundação do mundo (no sentido da esfera humana e da ordem centrada no homem) ou kosmos daquela época [...].Conforme mostra o relato, essencialmente a raça humana teve um novo início. Um evento catastrófico havia ocorrido, reduzindo a raça humana a Noé e sua família. Mesmo sendo verdade que todos nós descendemos de Adão (como Noé), todos temos a Noé como ancestral comum. O que se declara de Gênesis 8:20 em diante é, evidentemente, a reafirmação de Deus quanto ao seu propósito e desejo, refletindo o que Ele havia dito no início da criação da terra e do homem. Ele assegurou aos sobreviventes da catástrofe do Dilúvio de que seu propósito original havia permanecido inalterado e que, apesar daquele evento traumático, haverá estabilidade nas provisões originalmente feitas com relação ao nosso planeta.

Não posso dizer que foi uma conclusão plausível. Jonsson está perfeitamente ciente de que o conceito historicamente aceito é de que a humanidade há milênios tem habitado todo o planeta Terra e somente um dilúvio global, tal como descrito em Gênesis, poderia restringir toda a humanidade a apenas 8 pessoas. Mas Jonsson está aprisionado à sua crença e não foi capaz de deixar que os fatos históricos o guiasse e, ao agir dessa forma, comete o mesmo erro daqueles que amoldam sua interpretação da Bíblia de acordo com crenças pré-concebidas.

Mas só por um momento consideremos que de fato, por volta de 3500 a.C., toda a humanidade se restringisse a apenas 8 pessoas em algum lugar do Oriente Médio. Os cerca de 5500 anos que se passaram desde então seriam suficientes para que todo o planeta viesse a ser habitado tal como hoje se encontra?


A ocupação das Américas

De acordo com os historiadores, a ocupação da América deu-se por duas possíveis rotas: pelo Oceano Pacífico, mediante o uso de pequenas embarcações e/ou pelo Estreito de Bering, ainda durante a última Era do Gelo, quando uma ponte de gelo ligava a Ásia à América. A rota via Pacífico nunca foi unânime e agora está quase descartada.



A rota via Estreito de Bering fechou-se por volta do ano 10.000 a.C., quando findava a última Era do Gelo, e agora Ásia e América do Norte estão separadas por um corredor aquático de 82 quilômetros de largura e com 30 a 50 metros de profundidade.  Caso os humanos, que em sua caminhada milenar da África para a Europa e Ásia, não estivessem apostos para fazer a travessia do estreito antes de 10 000 a.C., quando os europeus chegassem às Américas nos séculos 15 e 16 teriam encontrado um continente completamente desabitado. 

Que a América é habitada desde milênios antes de Cristo não há dúvida entre os historiadores, e a civilização olmeca pode ser a mais antiga das civilizações americanas, tendo habitado a região do México desde 1500 a.C. até por volta de 400 a.C.

Infográfico da Torre de Vigia
Um atestado disso pode ser visto até mesmo na literatura da Torre de Vigia, quando ela, em um infográfico, traz a lista das civilizações mais antigas e faz constar que a civilização olmeca existe desde mais de 1000 anos antes de Cristo.  (Veja Despertai! de 8 de maio de 1999, página 17).

Mil anos antes de Cristo é apernas cerca de 1400 anos depois do dilúvio bíblico, conforme calculado pela Torre de Vigia, e 2500 anos depois do dilúvio mesopotâmio, conforme o artigo de Carl Olof Jonsson.  Como se ver, é tempo insuficiente, em ambos os casos, para que uma família de apenas 8 pessoas cresça o suficiente, ocupe a Europa e Ásia, e chegue às Américas para formar aqui uma civilização historicamente reconhecida. E ainda que, sabe-se lá por qual motivo, integrantes de gerações posteriores dessa família queiram partir para uma viagem insólita, Pacífico adentro, em busca de um continente imaginário, simplesmente não havia como chegarem às Américas, pois há milênios que a única ponte possível – o Estreito de Bering – era um largo oceano com mais de 80 quilômetros de largura.

Nem a Torre de Vigia, nem Jonsson, e nem ninguém que defenda um dilúvio global e universal (exterminação de toda a humanidade desobediente) consegue apresentar uma resposta satisfatória ao desafio proposto. Pelo contrário, a única solução apresentada é calar-se diante da inquietante pergunta.


Compromisso com a crença em vez de compromisso com a verdade

Se o dilúvio de Gênesis foi local ou global, a discussão continuará. Admira-me, no entanto, que um texto supostamente sagrado, “ditado” pelo criador, possa ser assim tão ambíguo, admitindo tantas interpretações quanto se deseje. Uma redação assim, feita por um aluno de uma escola que se preze, provavelmente receberia a nota mínima, se não a nota zero.


Que um dilúvio global jamais ocorreu, isto ficou provado em artigos anteriores; mas que o livro de Gênesis trata de um dilúvio global, isso foi o que interpretou praticamente toda a comunidade cristã desde os seus primórdios, e é ainda uma interpretação popular – haja vista a enorme quantidade de pregadores que o alardeiam mundo afora. Mas como digo na introdução deste artigo, devido às evidências inegáveis contra um dilúvio global, é crescente o número de pessoas que reinterpretam Gênesis e passam a ler nele, ainda que nas entrelinhas, um dilúvio local. Ainda assim, em razão de a Bíblia afirmar que apenas 8 pessoas foram salvas, o dilúvio local precisa ser também universal, envolvendo a humanidade inteira – o que, como vimos, também não está de acordo com os fatos. Mas em se tratando de algumas religiões, não se pode deixar de notar que o compromisso com a verdade é, muitas vezes, miseravelmente sobrepujado pelo compromisso com a crença.


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5 comentários:

  1. Incrível a profundidade do teu estudo. Deve ter dado muito trabalho. Gostei muito. Parabéns.

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    1. Deu trabalho, Márcia!

      Muito obrigado pela visita, querida!

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  2. Leí y me asombra la forma como nos dejábamos llevar por estos cuentos....definitivamenete hay que replantearse el asunto desde la optica del conocimiento como dice.Interesante artículo el tuyo.Felicidades.

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