sábado, 24 de fevereiro de 2018

"Tive contato com material apóstata; e agora?" Uma resposta


(NM) O primeiro a apresentar a sua causa parece estar certo...
(KJA) A primeira pessoa a apresentar sua causa sempre parece ter razão...

(Provérbios 18:17)

Não é surpresa para muitas Testemunha de Jeová a existência de páginas apologistas, que se proliferam cada vez mais pela internet e mais especificamente pelas redes sociais – ainda que isso seja feito contra a vontade de sua autoridade maior, o Corpo Governante. A outras tantas Testemunhas surpreende, no entanto, o quanto algumas dessas páginas procuram distorcer os conselhos e advertências do Corpo Governante, adotando a postura de que ‘conselho a gente segue se quiser, e esse conselho a gente não quer seguir’. Como consideram o Corpo Governante como um guia espiritual, a atitude rebelde é no mínimo contraditória.

Nos últimos meses, um grupo autodenominado “A Verdade é Lógica”, que, até aonde sei, tem presença no youtube e no facebook, fez várias postagens confrontando doutrinas básicas de muitas denominações cristãs, como a Trindade e o Sábado, dentre outras. Há pouco mais de um mês, no entanto, depois de alguns apologistas terem sido expostos pelo ativista Carlos Fernandes, foi publicado no canal deles um vídeo intitulado “Tive contato com material apóstata; e agora?” Neste vídeo, o youtuber, quase que sem contestar nenhuma acusação específica dos considerados apóstatas, acusam-nos de mentirosos, além de impingir-lhes diversos outros adjetivos difamatórios.

Irei aqui examinar grande parte das afirmações do youtuber, verificando a validade delas de acordo com fatos facilmente checáveis pela maioria das Testemunhas de Jeová. Outra resposta a esse vídeo pode ser lida aqui

Para começar, cabe perguntar quem é o narrador, que, pelo que posso presumir, é também o autor dos argumentos. Vários apologistas podem ser vistos neste artigo da página Desperta, embora eu não possa afirmar que um ou mais deles sejam os mantenedores do grupo A Verdade é Lógica. Sobre por que não revelam suas identidades, eles publicaram recentemente uma justificativa. Em termos simples, (1) dizem que é para não trazer mérito para eles próprios e (2) para não fazer outros tropeçarem, visto que esses “outros” não concordam com o que fazem. Também (3) dizem que o sigilo dos nomes lhes poupa de ataque ad hominem, que, segundo o narrador, é o que os opositores (presumivelmente os “apóstatas”) sabem fazer.

1 - Aceitemos que a primeira justificativa seja verdadeira;

2 - Quanto à segunda – os “outros” –, se por “outros” se referem a Testemunhas comuns, estas tropeçam pelo que fazem quer saibam ou não a identidade deles; tropeçam quando, como será visto adiante, ficam sabendo por intermédio deles o grande segredo “Nações Unidas”, bem como tropeçam por concluírem que podem também ingressar no trabalho apologético pela internet, que é o que se nota mais e mais. Os “outros” que não concordam são também o Corpo Governante, mas quanto a estes, o grupo já declarou que não leva em conta a opinião de sua liderança maior; racionalizam que “não apoiar” é diferente de “proibir” e que, por isso, vão continuar fazendo o que fazem, queiram ou não o Corpo Governante. Portanto, essa segunda justificativa só é válida na parte em que safam os autores de serem chamados a se explicarem pela postura desaconselhada, caso revelassem as identidades.

3 - Sobre ataque ad hominem por parte dos “opositores”, é evidente que uma identidade secreta não é capaz de impedir isso; Carlos Fernandes nunca revelou sua identidade, mas constantemente sofre ataques ad hominem.

Considerando que esta última justificativa é inválida, deseja-se saber se tanto ela como a primeira foram acrescentadas apenas porque a segunda, por si só, é motivo suficiente para o grupo manter secreta as suas identidades.

Qualquer que seja o caso, a identidade deles não me será nem um pouco necessária nesta refutação.

Mais alguns detalhes precisam ser ditos antes que eu inicie a análise do vídeo.

Primeiro: por todo ele, o narrador refere-se a expressões do tipo: “os apóstatas dizem”, “os apóstatas pensam”, “os apóstatas querem”... Nós, os “apóstatas”, não temos uma liderança ou um líder que pensa por nós; cada um é livre para tirar quaisquer conclusões a respeito de qualquer assunto relacionado à Torre de Vigia e cada um defende o seu conceito, submete-o à opinião de outros ou simplesmente guarda para si. Se a maioria de nós, ou uma minoria, defende um determinado conceito ou ideia, é porque este conceito parece a esses justificar-se à base do que se analisa. O mesmo se pode dizer dos políticos, dos filósofos, dos membros de determinada igreja, etc. A respeito desses grupos, quase sempre é inapropriado atribuir a um grupo inteiro todo um conceito, que pode ser apenas o conceito de alguns. Sabemos que a generalização é uma falácia comum em argumentação e ela é recorrente no vídeo.  

Segundo: o Corpo Governante, por diversas vezes, já escreveu que os “apóstatas” odeiam as Testemunhas de Jeová e o youtuber também repete esse conceito. Essa ideia é claramente incorreta. Embora eu não possa negar que as Testemunhas de Jeová sejam odiadas por “apóstatas”, o que fica evidente a todos que fazem uma análise honesta é que o nosso ativismo é contra a hierarquia, o Corpo Governante; não necessariamente contra os indivíduos que o compõem, mas contra as doutrinas elaboradas por eles (muitas delas biblicamente mal  fundamentadas), e por exigirem submissão absoluta às regras que estabelecem, as quais, quando versa sobre assuntos tão sérios como tratamento de saúde e questões familiares, podem causar traumas irreparáveis. Nosso trabalho, quando analisado seriamente, nota-se que é uma declaração de amor às Testemunhas de Jeová. 



Os “desertores”

(1:26) Jamais devemos dar atenção a desertores;

Por que algumas TJs
preferem não mostrar o
rosto?
O uso do termo “desertores” dar-nos um vislumbre sobre o que se passa na mente do youtuber, quando o assunto é os “apóstatas”. O termo “desertor”, embora tenha outros significados, geralmente é associado ao campo militar, onde o soldado desertor, em tempos antigos, era punido com a morte; e mesmo na época atual os soldados desertores, quando recapturados, são comumente julgados em um tribunal militar.  De forma hipotética, é essa a perspectiva de um “apóstata”.  Mas a parte triste dessa situação dita “hipotética” é que ela é bem real para muitas Testemunhas que têm família e amigos na religião TJ, mas já não acreditam na doutrina. Muitas delas, em busca de apoio emocional ou de orientações, acessam grupos “apóstatas” nas redes sociais ou inscrevem-se em fóruns de ex-tjs, mas sentem-se forçadas a usar pseudônimos e jamais postam foto real. Não fazerem isso sujeita-as a serem “recapturadas” e levadas para uma comissão judicativa onde responderão pela acusação de apostasia. O resultado de uma comissão assim pode, muitas vezes, ser a excomunhão, com a resultante morte social.

Mas quem as denunciam? Como são identificadas? Isso nos remete a outra declaração do youtuber, que discorre sobre Testemunhas de Jeová infiltradas em religiões evangélicas:

(16:35). Desde os tempos dos apóstolos já existiam apóstatas infiltrados no povo cristão. E hoje não é diferente. Mas agora eu lhe pergunto: o verdadeiro cristão é aquele que está infiltrado na religião falsa? Você já viu alguma Testemunha de Jeová infiltrada nas igrejas evangélicas? Você já viu o anjo de Jeová infiltrado entre os demônios a fim de desmascarar Satanás? O que é mais provável? Não é o contrário? Não é Satanás que se infiltra na organização de Jeová?  Se os apóstatas são portadores da verdade e as Testemunhas de Jeová são falsos cristãos, uma seita, por que é que nós não infiltramos ninguém em nenhuma religião que existe, mas eles fazem questão de apostatar e se manterem infiltrados na nossa organização?

Depois deste argumento claramente insustentável, o apologista fica tão convencido de sua sabedoria que cobra aplausos para si mesmo, num gritante desacato a Provérbios 3:7, que alerta contra tornar-se sábio aos próprios olhos.


Aplausos pra mim! Mais, mais, mais...   
Não existe Testemunha de Jeová infiltrada nas religiões evangélicas por uma razão evidente. Nenhuma religião evangélica pune com ostracismo os seus membros que desejam desligar-se dela. Assim, nenhum de seus membros que se torna Testemunha de Jeová precisa fingir pertencer a outra igreja para continuar se comunicando com seus familiares e amigos. Essa, porém, não é a situação das Testemunhas de Jeová que desejam abandonar a religião, restando-lhes, portanto, permanecer infiltradas. Nada disso que conto é novidade para o apologista, de modo que o argumento dele não é demonstrado falso apenas agora; ele já se mostrava falso desde quando foi gerado em sua mente, mas ainda assim apostou na ingenuidade das Testemunhas. O que o apologista talvez desconheça é que Testemunhas de Jeová se infiltram entre os apóstatas para, dentre outras coisas, tentar identificar “escravos” e arrastá-los a uma comissão judicativa. Vez e outra, no fórum de ex-tjs, onde sou um dos moderadores, alguma Testemunha “fugitiva” pede para desativar o perfil porque foi identificada por espiões que, à moda de capitães-do-mato, adotaram para si a função de caçar “escravos fugidos”. E não só isso: pelo menos por duas ocasiões, os ips de filiais foram detectados em fóruns “apóstatas”; veja aqui e aqui.

A atitude de Testemunhas, até mesmo do alto escalão, de se infiltrarem entre os “apóstatas” para identificar “fugitivos” não é nada típico da religião verdadeira – e é muito mais grave do que infiltrar-se nas religiões evangélicas.


‘Ouça apenas a nossa versão’

Que suprimir a versão dos “apóstatas” é prática antiga da Torre de Vigia, isso não é novidade. Mas abordo isso aqui para salientar que o youtuber, a despeito de dizer que “a verdade é lógica”, descarta a lógica sempre que isso convém a ele.

(1:26). Jamais devemos dar atenção a desertores.

(6:38). Se você tivesse que fazer uma pesquisa sobre judeus, confiaria nas informações vindas de um site nazista?  Ou se vivesse no primeiro século e quisesse obter informações sobre Jesus, perguntaria pra quem? Pros fariseus ou pros discípulos de Jesus? Da mesma forma, como poderia confiar em informações que vêm de sites ou páginas de pessoas que odeiam as Testemunhas de Jeová? Qual a chance de eles serem imparciais? Não deveriam ouvir o que as próprias Testemunhas de Jeová têm a dizer?


(21:40). Todos nós temos dúvidas; a dúvida faz parte da vida, mas não é num site apóstata que você vai sanar as suas dúvidas.  A internet é um campo muito perigoso para se pesquisar sobre essas coisas.

Na introdução deste artigo citei Provérbios 18:17, que sinaliza a justiça de se ouvir os dois lados de uma questão; a própria Torre de Vigia cita esse versículo para dizer que um ancião não pode tomar partido do primeiro que lhe apresenta uma causa, embora descarte essa sabedoria sempre que o assunto é os “apóstatas”. Como os ativistas são desacreditados pela Torre de Vigia, é apenas natural que as Testemunhas sejam temerosas de se informar sobre o que dizemos a respeito de sua liderança. No entanto, o bom senso no mínimo deveria fazê-las se questionar sobre por que o Corpo Governante não quer que elas ouçam a versão dos “apóstatas”.  O argumento de que, caso alguém queira se informar sobre os judeus, ou sobre Jesus Cristo, não é consultando seus inimigos que se saberá a verdade, faz todo sentido – mas apenas se o pesquisador restringir-se a ouvir apenas os inimigos. Nós, os “apóstatas”, não pretendemos sermos os únicos a serem ouvidos. É o Corpo Governante que tem essa postura e quem tira conclusões por ouvir apenas uma parte – a da autoridade religiosa – deve admitir que não está agindo com a sabedoria recomendada no provérbio citado no início deste parágrafo.

O apologista também questiona sobre quais as chances de sermos imparciais. A imparcialidade definitivamente não é uma coisa que as Testemunhas devem esperar dos “apóstatas”. Nós, os “apóstatas”, no parecer da Torre de Vigia, somos os agentes de Satanás; e Satanás, evidentemente, não tem a imparcialidade como uma de suas qualidades. É do Corpo Governante que as Testemunhas devem esperar imparcialidade e, no entanto, quando esta imparcialidade foi esperada, a autoridade religiosa falhou miseravelmente. Apenas para citar um exemplo recente, tomemos o Caso Austrália e o Caso Rússia. As Testemunhas sabem do Caso Rússia com uma imensa quantidade de detalhes – tudo graças à grande cobertura que fez o site JW.ORG; quanto ao Caso Austrália, onde até um membro do Corpo Governante foi “arrastado” para depor no tribunal, até a presente data, tendo se passado mais de dois anos, absolutamente nada consta no site JW e em nenhuma outra publicação que seja de acesso público.




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Finalmente o youtuber, depois de dizer que ‘não é num site apóstata que as Testemunha vão sanar suas dívidas’, afirma que “a internet é um campo muito perigoso para se pesquisar sobre essas coisas”.  Comumente escutamos esse tipo de alerta vindo de pais ou profissionais que estão preocupados com o risco a que crianças estão expostas quando acessam a internet. Assim, que ideia o apologista passa a respeito das Testemunhas de Jeová, quando parece considerar que elas são muito ingênuas ao ponto de que são incapazes de concluírem por si se uma determinada informação vinda de “apóstata” é verdadeira ou falsa? É verdade que o conceito do apologista é o mesmo conceito do Corpo Governante e aqui cabe umas perguntas:

Qual a natureza das possíveis dúvidas que uma Testemunha poderia ter ao ler um site apóstata?

Se forem dúvidas em razão de serem pessoas ingênuas, incapazes de tirarem conclusões corretas ao tomarem ciência dos dois lados da questão, qual a garantia de que igualmente não são Testemunhas apenas por serem pessoas ingênuas?

Por outro lado, se forem pessoas com boa capacidade analítica, e ainda assim passarem a ter dúvidas a respeito de suas crenças, não será em razão de que a doutrina que se lhes ensinou por anos não suporta a uma boa análise crítica?

Diante disso, cabe-me novamente concluir que exigir ser o único a ser ouvido numa controvérsia tão séria quanto essa não é nada compatível com a postura que se pode esperar da religião verdadeira.


Nenhum caminho melhor...


(4:08) [Os apóstatas] não apresentam nenhum caminho novo melhor a seguir, apenas um caminho a parar de seguir


(4:34). Você não acha estranho que o único objetivo deles seja fazer você deixar de ser Testemunha de Jeová, mas eles não estão nem um pouco interessado para onde você vai depois?


(5:39). Não seria de esperar que eles saíssem para o mesmo destino? Ora, não são eles os portadores da verdade, aqueles que elucidam as Testemunhas de Jeová? Que luz é essa, que divide e que não une?

Esse é o típico argumento espantalho combinado com a falácia da generalização precipitada.

Mas não, nós deixamos de ser Testemunhas, não porque encontramos um caminho melhor ou porque somos “portadores de verdades”(argumento espantalho), mas o fizemos porque descobrimos que as “verdades” que a religião TJ nos vendeu eram, em grande parte, ensinos falsos, sendo que muitos deles foram depois descartados pela própria liderança TJ. É verdade que muitas ex-TJs encontraram depois um “caminho” melhor, que costumam chamar de Cristo, e o servem sem uma organização intermediária, pois acreditam que Ele, e somente Ele, é “o caminho, a verdade e a vida”, e que nunca foi necessário pertencer a qualquer denominação religiosa que se autodenomine “arca da salvação”.  Outros, depois de reencontrarem o equilíbrio emocional, decidiram viver sem religião, considerando-as desnecessárias em suas vidas.

Em quaisquer dos casos, deixar de ser Testemunha de Jeová foi uma libertação em muitos sentidos.  Famílias antes desfeitas, em razão de os parentes não-TJs serem descartados como má associação apenas por serem “mundanos”, foram depois unidas, readquirindo a unidade e fraternidade de uma família normal. Estudos, carreira, casamento, filhos, mais tempo para lazer com a família, mais cuidado com a saúde... Vida com qualidade, em termos simples, foi a recompensa indescritível para a maioria daqueles que deixaram de ser Testemunhas de Jeová – independente de se esses foram para a religião A, B ou C ou se decidiram viver sem religião. O destino, por isso, se é que pode ser definido algum, parece ser tão simples como deixar de ser Testemunha.

Não surpreende, portanto, que os “apóstatas”, de modo geral (porque generalizar é quase sempre inadequado), não apresentam um “caminho” à TJ que desperta de sua crença; convencendo-se de que a sua religião não é, e nunca foi, a “verdade”, a Testemunha é deixada livre para decidir que rumo tomará no que diz respeito à sua fé, assim como nos acusou o apologista:

(4:45) Percebam que eles não dizem pra você se você deve ser ateu, evangélico, umbandista, macumbeiro, muçulmano; enfim, eles não estão nem aí para o que você vai fazer depois...

Longe de isso ser uma insensatez, isto é, tirar a Testemunha de sua fé sem oferecer a ela nenhuma religião melhor, consideramos isso uma grande virtude, pois deixar que alguém escolha por si só que caminho seguir é, pois, uma das maiores liberdades, que é assegurada inclusive na Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo XVIII:



Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.


É a religião das Testemunhas de Jeová que se apresenta como um “caminho melhor”, apesar de que, por mais de um século, muito de suas doutrinas e regulamentos têm-se revelado ser puramente ideias humanas, com efeito trágico na saúde e no emocional de muitos milhares de pessoas, inclusive com consequências fatais. Tirando-se as doutrinas exclusivas, falhas, tais como a data de 1914, o uso sistemático do nome Jeová, a pregação de casa em casa, o ostracismo imposto a ex-membros e a política impositiva do sangue, a religião TJ torna-se uma religião comum, pois praticamente todas as demais doutrinas são compartilhadas por várias outras religiões. Visto por essa ótica, a religião TJ, a despeito do que diz, é na verdade um caminho pior, não um “caminho melhor”; quando compreendemos isso, fica claro que conscientizar as Testemunhas dessa realidade é uma grande responsabilidade moral, embora sair da religião seja uma decisão deixada a cargo delas próprias.  



Ataques Ad Hominem


 Quando apresenta as supostas motivações para a nossa atividade “apóstata”, o youtuber não economiza nos ataques Ad Hominem. 


(3:15) Todos eles têm o mesmo espírito: o que os movem é ódio à organização. Não seu amor a deus ou ao próximo. 

(3:24) Os motivos podem ser variados, mas em resumo é o seu descontentamento pessoal, talvez rixas carnais, orgulho, falta de fé e conhecimento também, um pecado grave que cometeram, necessidade de destaque, chamar atenção, vitimismo. 

(3:58) [Eles possuem] um único objetivo: difamar as Testemunhas de Jeová e a sua organização, desviando o foco das pessoas interessadas no ensino de Jeová... Qual é o objetivo deles? Enfraquecer a sua fé em Jeová e na sua organização, seja os estudantes ou aqueles que estão se achegando à organização, e nada além disso, pois não apresentam nenhum caminho novo melhor a seguir, apenas um caminho a parar de seguir.

Não há muito o que dizer a seguir, senão afirmar que os ataques possuem a mesma natureza dos ataques a Carlos Fernandes, conforme mostrado anteriormente. Esses ataques vindos do youtuber acaba por contrariar a sua própria afirmação de que o anonimato lhe preserva de ataques Ad Hominem. Como se vê, sem se dirigir a nenhum “apóstata” por nome, ele comete a mesma falha que julgou ser possível apenas quando se sabe a identidade de alguém. Isso evidencia, portanto, que a sua terceira justificativa para não revelar a identidade não tem mesmo nenhum fundamento. E mesmo que todas as acusações feitas pelo youtuber fossem verdadeiras, isso por si só não eliminaria a necessidade de contestar primeiro as afirmações dos “apóstatas”.  Uma afirmação nunca é provada falsa apenas porque quem a faz está motivado por vingança, orgulho, falta de fé ou falta de conhecimento, por querer destaque ou por qualquer outra razão.


Nações Unidas

Depois de atacar os “apóstatas” – algo erradíssimo para quem se deixa guiar pelos princípios que regem a boa argumentação –, o youtuber tem a oportunidade de provar que os “apóstatas” são mentirosos quando acusam a sua liderança, a Torre de Vigia, de ter-se filiado a um órgão político e de acobertar pedófilos com sua política das duas testemunhas.

Depois de candidamente admitir que a Torre de Vigia realmente esteve ligada às Nações Unidas (veja minuto 17:50 do vídeo), o youtuber continua:

(8:37) A ONU possui informações em nível mundial; e a Organização das Testemunhas de Jeová também é mundial. Seria essa a ligação? Se ela se desligou, provavelmente é porque em algum momento aquilo que motivou a filiação já havia cumprido seu objetivo. Muitos documentos e filiações em órgãos públicos são feitos pela organização ao redor do mundo. Ela não informa todos esses documentos em suas publicações e isso não significa que tais filiações sejam secretas.

Antes de tudo, é preciso esclarecer que a ONU não é um simples “órgão governamental”, como algum Ministério da Fazenda ou Ministério do Meio Ambiente, onde a Torre de Vigia evidentemente, para o bom exercício de sua atividade religiosa, teria de assinar acordos diversos.

Esse esclarecimento é necessário porque é isso que dar a entender o seguinte questionamento do apologista:

(8:19). Como seria possível que uma organização religiosa mantivesse ligação secreta com algum órgão governamental?

A ONU, em termos gerais, é um órgão político, criada primariamente para o fim de resolver disputas políticas entra as Nações coligadas.  Que uma associação da Torre de Vigia com as Nações Unidas é inaceitável, segundo os próprios critérios da Torre de Vigia, é que, por ocasião do rompimento do acordo por parte desta, em 2001, foi alegado incompatibilidade de interesses, a respeito dos quais a Torre de Vigia alegou ter tomado conhecimento apenas naquela ocasião. Documentos emitidos pela ONU dão conta de que a Torre de Vigia estava a par de tudo desde o começo. E toda a literatura da Torre de Vigia, nos últimos 100 anos, mediante o seu desprezo para com a extinta Liga das Nações e sua sucessora, é prova mais do que suficiente de que a ONU é um órgão político

Será desnecessário que eu entre em detalhes sobre o Caso Nações Unidas, uma vez que sobre isso há farta informações na internet; aliás, este assunto é outro caso que testou a suposta imparcialidade da Torre de Vigia. Para as Testemunhas que quiserem saber mais a respeito desse assunto, será frustrante constatar que nada disso consta nas fontes de sua confiança, como no site JW e no Wachtower Library. Isso porque, mesmo depois de 17 anos que essa relação secreta foi exposta na imprensa internacional, a estratégia adotada foi sempre a mesma: não tratar desse assunto em publicações de acesso geral às Testemunhas, mas manter nas filiais uma resposta-padrão, para ser enviada a cada Testemunha que faça pergunta sobre o assunto.  O youtuber, no entanto, vai na contramão de sua liderança e não tenho dúvidas de que muitas Testemunhas, depois de ouvirem isso, foram digitar “ONU” e “Jeová” em famoso indexador da internet – embora, nesta parte do vídeo, ele tenha tido o cuidado de dirigi-las para outras páginas apologistas, que, igualmente, não ligaram, ou não sacaram qual a estratégia da Torre de Vigia.

Depois o youtuber acrescenta:

(9:18) O que essa pessoa [apóstata] realmente sabe sobre o [caso Nações Unidas]? Será que ela estava lá? Será que ela conhece as pessoas que fizeram a filiação pessoalmente? E sabe quais são as reais intenções das pessoas?

Iguais perguntas podem ser feitas ao youtuber; se as respostas dele forem negativas, isso significa que ele e nós, os “apóstatas”, estamos na mesma situação, tendo apenas a opção de escolher em quem acreditar. Se esse é o caso, cabe à Testemunha que investiga o assunto se acercar do maior número possível de informações e, neste respeito, o site indicitj contém uma coletânea de artigos, que, se não forem conclusivos para o pesquisador, no mínimo lhe dará um norte para seguir com suas pesquisas.

Por fim o youtuber, levantando a possibilidade de que a ligação da Torre de Vigia com a ONU possa ter sido um erro, incentiva a Testemunha a se questionar:

(9:34) O que essa acusação vai interferir nas minhas crenças? Agora Jeová é uma Trindade. Agora Jeová não é o nome de Deus. Já sei: o negócio da ONU faz com que o inferno seja real. Agora a alma se tornou imortal.

Esse é um argumento usado pela própria Torre de Vigia. Por vezes, a Torre de Vigia já fez referências a seus erros passados, como levantar falsas expectativas a respeito de um fim tão próximo, até mesmo fazendo referência a certas datas. Apesar de que esses erros, no final das contas, foram flagrantes mentiras religiosas, a Torre de Vigia prefere chamá-los de “equívocos” e exige das Testemunhas que assim os encarem.  A Torre de Vigia, por sua vez, não aplica esse mesmo critério ao membro que sucumbe às fraquezas da carne, exigindo dele que se declare arrependido para que não seja julgado como impenitente e expulso da congregação. O arrependimento é exigido até mesmo de quem aceita uma transfusão de sangue ou de quem passa a apoiar um partido político. A esse não importa se continua considerando como verdadeiras todas as doutrinas da religião. Importa unicamente se está arrependido do “pecado”, muitas vezes, de tentar desesperadamente salvar a própria vida.

O argumento do apologista também é provado falho por outro motivo: o Caso Nações Unidas nunca foi a única acusação que se fez contra a Torre de Vigia; mesmo antes de esse caso vir à tona, muitas doutrinas da Torre de Vigia já eram expostas como biblicamente indefensáveis, a exemplo da doutrina referente à data de 1914 e as afirmações decorrentes dela, como a garantia profética referente à ‘geração que não passaria’.  Esse único erro, o de 1914, põe por terra todo o arcabouço doutrinário que sustenta a aclamação de que as Testemunhas de Jeová são a única religião verdadeira e a única que é guiada diretamente por Deus.  Sem esse suporte, as afirmações feitas por sua liderança a respeito das demais doutrinas, como a defesa do uso sistemático do nome Jeová, a negação da Trindade, a pregação de casa em casa e a condição dos mortos – todos esses conceitos, sejam eles verdadeiros ou falsos,  devem ser encarados apenas como as opiniões de um grupo religioso bem-intencionado e nada mais.

Pedofilia

Ao tratar desse assunto, o youtuber mais uma vez volta-se para os “apóstatas” e aponta-lhes o que seria contradições nos requerimentos que fazem.

Começa trazendo para a questão o assunto ostracismo, a respeito do qual queixa-se de que acusamos a Torre de Vigia de ser rígida demais; depois, referente a pedofilia, diz que acusamos a sua liderança de ser branda demais. Mas afinal, o que queremos? Dureza ou brandura?  Pergunta isso como se rigidez e brandura fossem terminantemente incompatíveis, como se uma pessoa, ou mesmo uma religião, não pudesse ser rígida em alguns aspectos e branda em outros. Em meu blog nunca questionei a legitimidade da excomunhão; ela é bíblica e a Bíblia condena adultério, fornicação, homossexualidade e muitos outros pecados. A igreja que segue a Bíblia evidentemente tenderá a excomungar do seu meio aqueles que praticam tais pecados. Isso é esperado e é compreensível. Mas o ostracismo imposto pelas Testemunhas de Jeová aos ex-membros, conforme especifica sua liderança, não tem nenhum fundamento bíblico.  Daí a acusação de que a Torre de Vigia é rígida demais –indo além do biblicamente aceitável – para com os ex-membros.

Quanto a pedofilia, é verdade que a regra de duas ou três testemunhas é bíblica; no entanto, no que se refere a crimes sexuais, que geralmente é praticado às escondidas, apenas a palavra da vítima é aceitável como prova (Deuteronômio 22:23-27). Além do mais, em muitos casos de pedofilia há outros fatores circunstancias envolvidos, como traumas emocionais e evidências testemunhais de que acusado e vítima, estiveram, por vezes, em circunstâncias em que o encontro foi possível. Apesar disso, a Torre de Vigia permanece irredutível na sua regra das duas Testemunhas, preferindo cuidar internamente de cada caso de pedofilia. Como a regra é perdoar o abusador em caso de se notar arrependimento, isso tem resultado em se deixar abusadores livres nas congregações apenas para esses continuarem os abusos, como ilustra o caso Candace Conti.  Relacionado a esse assunto, há vários casos de abuso sexual infantil que chegaram aos tribunais ou que tiveram seus trâmites legais iniciados, mas que, por intervenção da Torre de Vigia, tudo acabou em acordo financeiro entre as partes, como conta Barbara Anderson em sua autobiografia. Tendo em vista tudo isso aqui exposto, parece-me evidente que o interesse da Torre de Vigia é manter limpa a sua imagem – ainda que isso resulte em muitos casos de pedofilia ficarem impunes ou em vultosas somas de dinheiro de donativos passarem às mãos de grandes escritórios de advocacia. Dizer que é branda a norma da Torre de Vigia sobre como lida com casos de pedofilia, não me parece o termo correto. Eu diria que ela é muito imoral, ainda em se tratando de uma religião que se porta como a única verdadeira.

Por fim, ainda a respeito deste assunto, o youtuber diz que acusamos a Torre de Vigia de ter feito mais de 300 mudanças em suas doutrinas, mas que, por outro lado, também a acusamos de não mudar a regra de lidar com casos de pedofilia. Novamente, para a infelicidade do apologista, a contradição apontada, ainda que possível de existir, não se fundamenta se avaliada cada acusação por seus próprios méritos.

Eu posso me queixar de um amigo que troca de camisa várias vezes por dia, dificultando que eu o reconheça de certa distância, quando o vejo em intervalo de apenas algumas horas; mas também posso queixar-me de que meu amigo está há várias semanas sem trocar de meias. As minhas queixas são a respeito da frequência com que meu amigo troca de vestimenta, mas, por versarem sobre diferentes peças de roupa, minhas queixas devem ser avaliadas cada uma por seus próprios méritos e não englobadas num único pacote; isso é o que faz o apologista quando junta num só pacote as queixas dos “apóstatas” quanto à frequência com que a Torre de Vigia faz mudanças doutrinárias – quando na verdade as queixas versam sobre assuntos bem diferentes.

Finalmente o youtuber apresenta um primeiro e único argumento para negar a existência de pedófilos entre as Testemunhas de Jeová.

(12:49). Sua experiência pessoal como Testemunha de Jeová deixa claro que isso é apenas calúnia. Afinal, quantas Testemunhas de Jeová você conhece que são acusadas de pedofilia?

Faz alguns anos que não frequento o Salão do Reino, por isso permito-me perguntar se atualmente por lá vigora a regra de que pedófilo tem que portar crachá que o identifique como pedófilo.

Piada à parte, deixemos claro que os anciãos jamais irão à tribuna anunciar ao microfone que o irmão fulano ou a irmã beltrana é praticante de pedofilia. Mesmo que subam à tribuna para anunciar uma desassociação, jamais será dito por que tal pessoa está sendo punida. Segundo a orientação mais recente enviada aos anciãos, que consta em uma carta datada de 1º de agosto de 2016, somente em casos de pedófilos em processo de reabilitação, seja batizado ou não, é que os anciãos, ‘em alguns casos, podem informar aos pais de filhos menores sobre a necessidade de monitorar o contato de seus filhos com determinada pessoa’. Nem mesmo nessa ocasião os pais são avisados de que fulano de tal ou beltrana de tal é praticante de pedofilia. Portanto, caro apologista, reavalie seu argumento de que o fato de uma Testemunha não conhecer uma só TJ que seja pedófilo pode ser tomado como prova de que nenhum TJ dentre seus irmãos é pedófilo.


Vidas úteis, vidas inúteis

(13:15) Cristãos de verdade possuem vidas úteis. Apóstatas possuem vidas inúteis.  Por exemplo, existem apóstatas que dedicam as suas vidas pra tentar mostrar “pras” pessoas que o que nós fazemos é contra o que a Torre de Vigia ensina; como se isso fosse problema deles! 

(13:37) A vida deles é tão inútil, tão sem sentido, igual a de Satanás, que eles se dedicam a uma causa com a qual eles não têm nenhuma responsabilidade. Eles não são mais Testemunhas de Jeová e eles dedicam a vida pra tentar mostrar pras pessoas que aquilo que o grupo a verdade é lógica faz na internet é contra a Torre de Vigia. Mas eles não são mais membros da Torre de Vigia, portanto isso não é da conta deles! 

(14:49) Ele não é mais membro da Torre de Vigia, mesmo assim ele liga pra a Torre de Vigia a fim de tentar pegar uma informação que nos coloque contra ela.

Mais uma evidência de que desconhecer uma identidade não impede ataques Ad Hominem.  Um nome fictício – Carlos, por exemplo – é suficiente.





...E os ataques continuam:

(15:15). Verdadeiros cristãos possuem vidas úteis ou vidas inúteis? ... quando um cristão sofre uma decepção, o que ele deve fazer? Viver de passado igual a museu? Ou construir um futuro diferente? E não precisa nem ser cristão para isso, é só ser um bom ser humano ...será que eles são bons seres humanos? Imagine que você more num um país, numa localidade que foi devastada por um desastre natural e você e várias pessoas perderam suas casas; mas graças aos apóstatas que formaram um grupo de caridade para socorrer especialmente todos aqueles que abandonaram a organização das Testemunhas de Jeová, agora você tem ajuda humanitária .... Não, meu amigo, isso não vai acontecer; sabe por quê? Porque a vida deles é inútil, não útil.

Quais são os critérios para se determinar que a vida de alguém é inútil? Existe apenas o critério de ajuda humanitária? Eu poderia listar aqui vários critérios que colocaria as Testemunhas de Jeová como pessoas inúteis, mas citarei apenas um:  o critério da doação de sangue. Todo ano milhares de vidas – inclusive de Testemunhas – são salvas porque “bons seres humanos” fizeram a imensa caridade de doar sangue. Mas esta caridade as Testemunhas de Jeová não fazem, pois é contra as regras do Corpo Governante. 

É justo determinar que a vida de alguém é inútil por um único critério? Definitivamente não é. As Testemunhas de Jeová não doam sangue e isso é uma decisão que precisa ser respeitada. No entanto, elas, como grupo, são bons seres humanos, apesar de as incontáveis regras farisaicas do Corpo Governante acabar por desgraçar a vida de grande parte delas.

Quanto a ajuda humanitária, é preciso verificar se é realístico a formação de um grupo de ajuda humanitária, composto de “apóstatas”, para socorrer ex-TJs que sofrem calamidades. Levando em conta apenas números do Brasil, sabe-se que em 2009 havia cerca de 690 mil Testemunhas de Jeová ativas. Desde 2010 até 2016 foram batizadas cerca de 204 mil novas Testemunhas, o que deveria elevar o número de TJs para cerca de 895 mil membros. No entanto, em 2016, segundo o anuário de 2017, havia cerca de 85 mil membros abaixo do esperado. Considerando que uma pequena porcentagem disso é devido a falecimentos, ainda é possível afirmar que nesse pequeno período mais de 80 mil Testemunhas encerraram suas atividades de pregação. Seja lá quais foram os motivos, não é nada razoável esperar que os “apóstatas” em atividade, que se restringem, talvez, a uma ou duas centenas, socorram todas as ex-TJs que sofram alguma calamidade.  

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Por agora faz-se necessário abrir um parêntese para tratar da seguinte declaração do apologista, quando ele considera a possibilidade de uma TJ deixar a organização e dedicar-se sozinha a um ministério de pregação: 

(6:17) Não, você não terá tempo para pregar sobre Deus porque a sua vida se resumirá durante 24 horas em criticar a organização de Jeová. 

Como os números indicam, apenas uma pequeníssima porcentagem de ex-tjs dedicam-se a expor os erros da Torre de Vigia; quase que a totalidade, portanto, quer ingressem em outra religião, quer não, passa a viver sua vida sem qualquer relação com a Torre de Vigia. Em vista dessa constatação, nota-se que as palavras do apologista servem ao único propósito de causar terrorismo e inibir a que TJs deem qualquer passo em direção à liberdade. 


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Existe, porém, outras formas de prestar ajuda humanitária de forma significativa, sem que seja por meio de um grupo formado exclusivamente por “apóstatas” e para atender pessoas predeterminadas.  Basta que cada pessoa, seja “apóstata” ou não, ajude o seu vizinho. 

Neste respeito conto aqui um incidente da minha vida, que testou muito a disposição das Testemunhas em prestar ajuda humanitária. Há quase 20 anos, quando eu morava só e estudava à noite, a minha casa foi roubada. Levaram alguns bens, roupas e toda a compra que fiz para o mês inteiro. Nessa época eu ganhava muito pouco, apenas o suficiente para o consumo e minha situação como TJ não era das melhores. Devido a alguns problemas de relacionamento com um ancião de outra congregação, eu acabei ficando numa fase de inativo. Então, nessa situação e depois de sofrer esse golpe, uma vizinha TJ foi até os anciãos e perguntou a eles se a congregação ia me ajudar. Ela ouviu deles que nenhuma ajuda seria prestada, pois eu não era uma Testemunha exemplar.

Para quem não sabe, as Testemunhas de Jeová possuem alguns critérios para determinar quem, dentre seus membros, está qualificado para receber ajuda humanitária. Mesmo em casos de refugiados, a política de seleção deve ser posta em prática, como foi declarado em um recente artigo da revista A Sentinela.  

Nas revistas da Torre de Vigia, é comum aparecer matérias sobre ajuda humanitária prestada por Testemunhas a seus irmãos de fé, mas quase que unicamente quando sofrem alguma calamidade devido a desastres naturais. Em alguns casos, até pessoas “mundanas”são ajudadas pelas equipes de socorro das Testemunhas de Jeová. Não há nada de errado nisso. Se as equipes de socorro estão em condições de ajudar, seria incompreensível que não o fizessem.  No entanto, para mim é muito desconfortável saber que pessoas “mundanas” estão sendo ajudadas, mas Testemunhas de Jeová que sofrem reveses do tipo que sofri são deixadas à míngua apenas porque não são “exemplares” – e sem contar que essas mesmas Testemunhas, agora deixadas à própria sorte, contribuíram financeiramente para as obras de caridade da Torre de Vigia! Que explicação há para isso? Pode-se deduzir alguma?  O que você deduz?




Mas este relato não pode terminar de forma triste. No dia seguinte ao roubo em minha residência, fui à delegacia e fiz um Boletim de Ocorrência. Depois disso, alguns dias depois, quando cheguei à sala de aula, fui surpreendido por meus colegas que me doaram duas caixas de alimento além de uma boa quantia em dinheiro, quase equivalente ao que eu ganhava em mês de salário. Tudo isso aconteceu porque um dos meus colegas de classe era soldado e lera o BO que fiz; comovido com a minha situação, ele mobilizou os demais colegas para me prestar aquela grandiosa ajuda humanitária.  O que os moveram a me ajudar? Bem, éramos quase todos recém-chegados à fase de adultos; pelo que lembro, meus colegas eram de maioria católica, havia dois ou três evangélicos e um era maçom. Nenhum deles era Testemunha de Jeová.  Não estou certo de que me ajudaram motivados por algum espírito humanitário cultivado por suas crenças. Nenhum deles parecia ser religioso praticante e nenhum deles, mesmo depois disso, fez qualquer esforço para me converter a qualquer outro credo. Parece-me certo concluir que me ajudaram pela única razão de que eram “bons seres humanos”.

E é neste ponto que quero chegar. Não há necessidade de que os “apóstatas” formem grupo de caridade para prestar ajuda humanitária a ex-membros das Testemunhas de Jeová. Por não ser realístico, dados os números apresentados, basta que cada pessoa, seja “apóstata” ou não, esteja disposta a ajudar o próximo quando surgir a oportunidade. Depois que se deixa a organização das Testemunhas, não é de praxe checar filiação religiosa para determinar se essa ou aquela pessoa está qualificada para receber ajuda humanitária. O fato de não se ver nenhuma matéria nos jornais a respeito de ajuda humanitária prestada por “apóstatas” não pode ser tomado como prova de que não o fazem. E é muito evidente que um único critério – o da ajuda humanitária – não pode ser tomado como base para se determinar se uma vida é útil ou inútil. Muitas vezes tudo depende das circunstâncias. Alguém pode ser conhecido por prestar ajuda humanitária, mas a sua existência, em um dado momento, é inútil se alguém precisa desesperadamente de sangue e o humanitarista, em razão de princípios religiosos, nega-se terminantemente a salvar uma vida.


Se está nas publicações, então não é secreto

(18:30). Você sabia que a maioria das acusações dos apóstatas relacionadas à organização já foram respondidas nas próprias publicações? 

(19:25) Os apóstatas simplesmente vomitam por diversas vezes os mesmos argumentos  e os ataques de sempre”...Nos próprios livros da organização nós vemos como ela explica as mudanças que ocorreram no povo de Jeová, o que se pensava anteriormente, como se pensa agora. Mas o que é que os apóstatas quem fazê-lo pensar?  Eles querem fazer você pensar que eles têm segredos que a associação não conta para você. Mentira! Todas as mudanças que tivemos nos nossos ensinos estão presentes nas nossas próprias publicações. Mas eles não dizem isso. Eles fazem você pensar que eles têm um segredo que está guardado a sete chaves e que eles são os portadores e iluminadores das verdades. Sendo assim, você não precisa se surpreender caso alguém um dia lhe mostre um livro contendo mais de quinhentas mudanças feitas pela Associação Torre de Vigia, até porque o antídoto pode ser que venha junto com a acusação, pois certamente eles lhes mostrarão essas coisas nas próprias publicações; ou seja, não é algo oculto, nem secreto, está lá para quem quiser ver. Seria algo simplesmente inútil, sem propósito, uma demonstração evidente de desespero demoníaco. Reflita: Se a informação está nas nossas próprias publicações, não há nada de escondido, não há nada de errado. São apenas fatos passados, que devem ser entendidos de acordo com a época em que cada matéria foi publicada. Esse tipo de acusação simplesmente não faz sentido.

É verdade que as mudanças doutrinárias da Torre de Vigia estão registradas em sua literatura. Mesmo porque não podia ser diferente. Seria preciso uma caça e queima de livros típica do tempo da Inquisição para que tal literatura, por agora, não estivesse à disposição para pronta consulta.

Mas cadê a literatura?  Quantas Testemunha de Jeová espalhadas pelo mundo inteiro tem os livros do tempo de Russell e da época de Rutherford, todos eles em seus próprios idiomas?

O apologista cita o livro Proclamadores do Reino como prova de que a Torre de Vigia não tem nada a esconder sobre seu passado. No entanto, quando se examina esse livro com conhecimento dos fatos, a verdade é outra. Os autores do livro Proclamadores, muito provavelmente cientes de que pouquíssimas Testemunhas iriam checar os fatos, procuram amenizar todos os erros da religião, distorcendo uns assuntos e omitindo outros, como pode ser visto aqui e aqui.

Contrário ao que se possa pensar, o Corpo Governante não se sente nem um pouco confortável em ter a literatura antiga circulando por aí. A autoridade religiosa até mesmo tem tomado providência para que a sua literatura recente não caia em mãos erradas, como pode ser visto no livro secreto Pastoreiem o Rebanho de Deus, página 115 (veja ao lado): 




E para concluir este assunto, disponibilizo aqui duas coletâneas das mudanças doutrinárias da Torre de Vigia. Estão em inglês, infelizmente, mas já é um grande passo, especialmente para aqueles que são dissidentes ativos. Em plena era da informação é deveras muito estranho que uma autoridade religiosa tão incisivamente lute para que o seu passado seja conhecido, não pelos próprios documentos da época, mas apenas pela sua versão do que de fato foi o seu passado. A depender dos zelosos dissidentes, essa pretensão está fadada ao fracasso.






Pilares irremovíveis

(23:08). Também é bom você criar pilares para onde você poderá correr, se segurar, se apoiar, sempre que estiver exposto a algo que possa balançar a sua fé. Por exemplo, anote algo mais ou menos assim: umas 3 ou 5 coisas que o convença de que você está na verdade. Então sempre que se deparar com qualquer tipo de informação que o deixe desconfortável, recorra a esses pilares.

Minha opinião é de que não pode existir pilares irremovíveis, não no que diz respeito ao conhecimento. Pode ser que tenhamos um pilar sobre o qual erguemos uma série de conceitos, mas depois, se verificarmos que os pilares já não se harmonizam com novas informações devidamente comprovadas, então os próprios pilares precisam ser removidos ou substituídos, não importam quanta segurança eles nos produzam.

Por exemplo, por muitos séculos o conceito de que a Terra era o centro do sistema solar foi um pilar sobre o qual se ergueu uma série de outros conceitos a respeito dos demais planetas e estrelas. Mas quando se acumulou informações que estavam em desarmonia com o pilar, foi necessário substituí-lo por outro pilar mais compatível com a realidade observada. É esse atual pilar irremovível? Aparentemente sim, mas só o tempo dirá. Esta é a realidade quando se toma um pilar por irremovível. A segurança que ele nos dá faz acreditarmos que ele é irremovível – até que, a duras penas, sentimos a sua queda com a consequência de que pode resultar em ruir todo o nosso castelo de ilusões.

A Torre de Vigia, desde os seus primórdios, ergueu muitos pilares sobre os quais assentou várias de suas doutrinas, mas ela própria tem decidido remover alguns pilares.

1874 foi um pilar que serviu muito a Charles Taze Russell e até mesmo a Rutherford. 1914, por sua vez, é o pilar principal da doutrina TJ e, no entanto, essa data é comprovadamente falsa. Enquanto eu era TJ, tinha a pregação de casa em casa como um pilar primordial, que estava sempre a me assegurar que a religião TJ era a única religião verdadeira, pois somente as Testemunhas de Jeová pregam de casa em casa, assim como ensina a Bíblia. No entanto, essa era apenas uma crença que me foi ensinado. A Bíblia não aponta a pregação de casa em casa como sinal identificador da religião verdadeira. Ela diz apenas que os cristãos devem pregar, e a forma de fazerem isso pode ser variada. Por muitos séculos, as igrejas evangélicas têm pregado em praça pública e mais recentemente através do rádio, da TV e da internet.  A pregação de casa em casa, tal como feita pelas Testemunhas de Jeová, é cada vez mais impraticável nas grandes cidades, onde os lares são cada vez mais inacessíveis. Ela é prática ainda nos interiores e nas pequenas cidades, mas a população nesses locais é bem reduzida. Isso, naturalmente, tem forçado a Torre de Vigia a variar sua forma de pregação, e tem adotado gradualmente quase os mesmos métodos de pregação há muito usados pelas igrejas evangélicas. Isso que acontece com a religião TJ, portanto, é também um sinal de que um pilar, ainda que nos forneça grande segurança, pode de fato não ser assim tão seguro e talvez possa ser até mesmo uma armadilha. Essa é a minha opinião.


Vergonha ou medo?

(1:04). E agora? Se tudo isso for verdade? Como eu vou saber? Tenho vergonha de perguntar tais coisas a um ancião  e revelar que eu tive contato com a apostasia. 

(21:14). Não é preciso ter vergonha de pedir ajuda.

É até compreensível que um aluno tenha vergonha de fazer perguntas ao professor, pois passará para os colegas a ideia de que não foi capaz de entender uma explicação. Esse, porém, não é o caso das Testemunhas de Jeová na situação colocada pelo apologista. A Testemunha de Jeová tem medo, não vergonha.  Se ela tem sinceras dúvidas e pesquisou o suficiente, então não será nada fácil para os anciãos responderem às suas perguntas. Muitos anciãos, quiçá a maioria, nada sabem sobre o caso Nações Unidas. E caso fiquem sabendo onde a Testemunha leu sobre isso, podem simplesmente dizer que é mentira dos apóstatas. Podem dizer isso com a maior das sinceridades, pois assim foram doutrinados pelo Corpo Governante, e à Testemunha podem dizer que ela cometeu um grave erro ao acessar sites ditos apóstatas. Se a Testemunha já ouviu antes alguma reprimenda dessa natureza, então ela dificilmente voltará a procurar anciãos para tratar de suas dúvidas.

Conclusão


O apologista conclui seu vídeo com um oportuno texto bíblico:



A pessoa ingênua acredita em qualquer palavra, mas quem é prudente pensa bem antes de cada passo (Provérbios 14:15).



Quatro capítulos adiante encontramos outro versículo de valor inestimável, que alerta contra levar a sério o primeiro que lhe conta uma história.


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2 comentários:

  1. Caro amigo, já tinha lido a matéria do Carlos Fernandes e achei muito bem analisada, mas você também refutou o vídeo de forma brilhante! Acho que de qualquer forma, o tal apologista ainda ajudou a encontrar os pontos para se tecer os raciocínios e você os aproveitou muito bem. Se o Corpo Governante pudesse ver isso, acho que moveria céus e terra para identificar o tal defensor, que na verdade, só deu mais munição para os "Apóstatas", kkkkk Abraços!

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    1. E que munições!

      O Caso Nações Unidas principalmente. O Corpo Governante usa uma estratégia e ele usa outra.

      Isso jamais pode dar certo.

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