sábado, 14 de outubro de 2017

O Dilúvio Global de Noé - parte II

Este artigo é uma resposta a uma série de artigos publicados na página Desperta, de Carlos Fernandes. Originalmente postado em parte única no blog ateismorefutado, de Lucas Banzoli, ele visa provar que o dilúvio global de Noé ocorreu de fato, e recorre à ciência para prová-lo. É nesta parte que decidi refutar algumas afirmações. Veja os artigos tais como publicados na página Desperta: parte I, parte II,parte III, parte IV, parte V e parte VI.

Não pretendo aqui contestar cada afirmação de que discordei, algumas por considerar insignificantes, e outras, por não ter domínio suficiente do assunto para fazer afirmações seguras.

Depois de apresentar um livro da década de 1960, que teria apresentado sólidas evidências a favor de um dilúvio global, tal como descrito em Gênesis, o autor escreve (o negrito é dele):

Diante de tantas evidências esmagadoras, não há como dizer que não houve um dilúvio em nosso planeta. E por não aceitarem o relato bíblico, críticos, até mesmo no meio científico, a partir do relato mesopotâmico do dilúvio lançaram uma teoria de que o dilúvio bíblico teria sido apenas uma inundação local, na região da Mesopotâmia. Mas tal teoria desaba quando examinamos a fundo todas (não apenas algumas) evidências.

O artigo foi escrito em 2014, segundo indica o link da postagem original. Portanto, posso assegurar que ele não examina, como promete, todas as evidências, já então disponíveis, que diz respeito a se houve ou não houve um dilúvio global. Veja aqui outras evidências, cada uma delas a contestar a existência de um dilúvio global.

Mais adiante, Banzoli promete fazer uma abordagem teológica e científica sobre as questões fundamentais do dilúvio. A respeito de abordagem teológica, não me parece uma ideia apropriada a abordar num artigo como este, a menos que o público alvo seja os crentes; afinal, se o dilúvio bíblico está sendo contestado, Deus e a Bíblia não podem, evidentemente, ser convocados a atestar a autenticidade dele, pois fazê-lo configura claramente a falácia do raciocínio circular. Portanto, na maioria das vezes que declarações bíblicas e o próprio Deus, mediante uso de milagre, são convocados a atestar a existência de um dilúvio global, eu evito fazer refutações. Afinal, se Deus, mediante ato milagroso, conduziu diretamente todos os animais para a arca e os manteve hibernados, de modo a poupar Noé de trabalho, que argumentos se pode apresentar em contrário?


Evidência de catastrofismo?

O primeiro tópico faz extensas afirmações a respeito de que por “todo o mundo existem florestas fossilizadas” bem como bilhões de animais soterrados e fósseis, o que, segundo Banzoli, é evidência de catastrofismo e, portanto, uma evidência de dilúvio global. A página Desperta adiciona a imagem ao lado, junta à qual acrescenta a legenda:

Este fóssil apenas poderia ter sido formado em situações muito particulares.

Infelizmente este fóssil não corrobora as afirmações feitas no blog, pois, segundo minhas pesquisas, parece tratar-se de um fóssil do Mioceno, que findou já há alguns milhões de anos. Se foi fossilizado numa catástrofe, não foi tal catástrofe o chamado Dilúvio de Noé, que o blog coloca como tendo ocorrido há cerca de 4.500 anos. Há de fato florestas fossilizadas, mas o blog não apresenta nenhum paleontólogo ou geólogo a atestar que essa ou aquela floresta fossilizada data de apenas uns 4.500 anos. Tenho conhecimento de que há florestas fossilizadas na Antártida, mas tais florestas datam de milhões de anos, quando aquele continente não era congelado.

A respeito de datação de fósseis, e se é possível que um fóssil seja formado numa catástrofe como um dilúvio global de há 4.500 anos, recomendo ver este vídeo do Pirula, que tem formação em Paleontologia.




A respeito de civilizações antigas, o blogueiro assim afirma:
Não deixa de ser significativo também o fato de que as mais antigas civilizações conhecidas surgiram cerca de trezentos anos após o dilúvio de Noé. Os registros históricos mais antigos que se conhecem têm cerca de quatro mil e quinhentos (4500) anos. São dessa época as civilizações mais antigas. As primeiras civilizações surgiram cronologicamente próximas do dilúvio e também, com nomes e línguas (toponimologia) baseadas nos filhos e netos de Noé. Isto é evidenciado nas línguas e civilizações mais antigas, todas relacionadas aos descendentes de Noé, - como as línguas semíticas, camíticas e jafetitas.

Esse parágrafo contém pelo menos duas incorreções. Sabe-se que tanto as pirâmides como Stonehenge foram construídas antes da data que se atribui para a ocorrência do dilúvio, e há vestígios de civilizações da mesma época tanto na China, como na Índia e na América Central; isso é atestado pela datação do Carbono 14, que apresenta dados confiáveis para até cerca de 50 mil anos. Que a linguística histórica parece remeter a uma língua-mãe a algum lugar na Europa ou na Ásia, vá lá; daí a fazer afirmações de que línguas e civilizações antigas estão todas relacionadas aos filhos e netos de Noé.... Não, isso está mais para indicar o que o blogueiro gostaria que fosse um fato, o que definitivamente não é.


Diversidade de mitos sobre um dilúvio e a Epopeia de Gilgamesh

Qual é a causa de tantos mitos sobre um dilúvio, que estão presentes em uma grande diversidade de culturas espalhadas por todo o mundo?

Os apologistas do Dilúvio global de Noé afirmam que os sobreviventes da arca, ao se espalharem pelo planeta (especialmente depois da suposta confusão das línguas, no episódio da Torre de Babel), teriam levados consigo a história do dilúvio, a qual, ao ser passada de geração em geração, acabou se espalhando por todo o mundo. Essa seria uma ideia plausível, não fosse o fato de que há lendas de dilúvio que se estimam serem de épocas anteriores ao suposto dilúvio de Noé.

A Epopeia de Gilgamesh é um exemplo. Sabe-se que se trata de um poema, possivelmente baseado em várias lendas, que teria sido coletadas pelo rei assírio Assurbanipal por volta do século VII a.C. As lendas de dilúvios, que deram origem ao tema pelo qual a epopeia ficou conhecida, podem ser resultado do degelo resultante do fim da última Era do Gelo, datada de cerca de 8 a 12 mil anos atrás. Portanto, embora a Epopeia tenha sido reunida no século VII a.C., a existência dela no imaginário popular era muito mais antiga.




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Por ser geograficamente tão próxima e por ser similar ao relato de Gênesis em muitos detalhes, acredita-se que a Epopeia de Gilgamesh é a fonte do relato bíblico. Moisés, a quem se atribui a autoria do primeiro livro bíblico, era descendente próximo de Abraão, que veio da Mesopotâmia e este pode muito bem ter trazido consigo um dos tais mitos, que então passou de geração em geração até Moisés. A Epopeia faz paralelismo com Gênesis não só no relato do dilúvio, mas também no relato da criação e perdição do homem. Os detalhes semelhantes são deveras incríveis! Pode-se conferir aqui..

Ainda sobre por que há relatos de dilúvio espalhados por muitas culturas, não se pode negar que as pessoas, desde eras remotas e até agora, costumam formar comunidades às margens de rios. Isso naturalmente as sujeita a sofrer por inundações, algumas tão grandes que poderiam devastar comunidades inteiras. Banzoli deve conhecer essa hipótese, mas deixou de apresentar qualquer refutação.

Também é citado estatísticas referente aos mitos de dilúvio, com detalhes que remetem ao relato bíblico. Veja abaixo.

Semelhanças:
- Em 95% das mais de 200 lendas de dilúvios, o mesmo foi global (em toda a Terra):  
- Em 88%, uma certa família foi favorecida; 
- Em 70%, a sobrevivência da espécie humana foi garantida por um barco; 
- Em 67%, os animais foram também salvos; 
- Em 66%, o dilúvio foi consequência da maldade do homem e os sobreviventes foram avisados; 
- Em 57%, no final do Dilúvio eles encontravam-se numa montanha; 
- Em 35%, pássaros foram enviados do barco; 
- Em 9% das histórias em torno do Dilúvio, exatamente 8 pessoas foram poupadas.

O que essas estatísticas significam? Absolutamente nada além de indicar que os mitos têm semelhanças entre si.  À primeira vista podemos ficar espantados porque talvez o único relato de dilúvio que conhecemos é o relatado na Bíblia, mas o fato é que qualquer indivíduo de qualquer parte do mundo, cuja comunidade local tenha uma lenda de dilúvio que abranja a maioria desses detalhes, pode dizer: “Poxa, como os relatos de dilúvio do mundo inteiro são parecidos com o relatado por minha tribo! Como pude supor que isso era uma fábula! ”. Além disso, ao que me parece, as estatísticas foram feitas apenas levando em conta os detalhes relatados pelo dilúvio bíblico. Isso é mais ou menos como se, num universo de 200 pessoas, cada uma delas examinasse a aparência pessoal de si e de todos os demais e dispusesse, em ordem decrescente, os detalhes em que os demais eram semelhantes a ela. Feito isso, não é lógico pegar uma pessoa ao acaso e concluir que todos as demais a tiveram como modelo.

Mais importante do que essas estatísticas é saber se há lendas de dilúvio anterior à de Gênesis. Referente a isso, Banzoli admite que sim (Os colchetes são meus).

Toda a questão envolvendo a data e a natureza destes poemas mitológicos asiáticos ainda está sob discussão e se mantém envolta em incertezas. Porém, as versões mais antigas, como citamos antes, são os fragmentos da versão babilônica arcaica da Epopeia de Atrahasis, datada do reinado de Ammi-saduqa, da Babilônia (1647-1626 a.C.).
Sendo assim, não difere muito do livro de Gênesis, pois Moisés o escreveu por volta de 1.600 a.C [1513 a.C., segundo a Torre de Vigia], de acordo com os cálculos das genealogias bíblicas. Na internet circula um boato que o livro de Gênesis tenha sido escrito no sétimo século a.C., mas isso não é verdade...

Tamanho da arca e sua resistência

A arca, segundo as medidas dadas pela Bíblia, tinha mais de 130 metros de comprimento. Segundo se sabe, navios feitos de madeira tem um limite físico de 115 metros, e a própria Torre de Vigia reconheceu isso ao tratar de uma frota de navios chineses.  Banzoli, para provar que a arca podia flutuar, cita o caso de navios egípcios de cerca de 2000 a. C., que, segundo ele, tinham 60 metros de comprimento e carregavam até 700 toneladas.  Mas 60 metros é menos da metade do tamanho da arca, e os tais navios egípcios muito provavelmente nunca enfrentaram um dilúvio global, com água suficiente para cobrir montes com mais de 8 mil metros. Fora isso, depois de haver água suficiente para a arca flutuar, haveria as correntezas ferozes, com água a descer das montanhas a muitos quilômetros por hora. Tais correntezas podiam arremessar a arca contra grandes rochedos e montes menores, os quais podiam facilmente fazer a arca se destroçar.

Mas qualquer argumento que se possa apresentar é inútil diante das próximas palavras de Banzoli:

É claro que, a arca só poderia ser preservada de modo sobrenatural, pois um evento que foi capaz de erguer a cordilheira do Himalaia seria capaz de reduzir a arca a fumaças, sem uma proteção sobrenatural. É óbvio que o mesmo Deus que disse que mandaria um dilúvio, que trouxe os animais até Noé também pouparia a arca no auge do evento, de ser destruída em meio à fúria da natureza...

Construir a arca também não seria uma tarefa nada fácil para Noé e família, principalmente se levarmos em conta as rústicas ferramentas da época. Mas para Banzoli isso não era nenhum problema para Noé, que podia recrutar inclusive os Nefilins (na citação abaixo, os colchetes são meus).

Sobre o número de pessoas envolvidas na construção da arca, provavelmente não foram apenas Noé e sua família. Eles podem ter contratado outras pessoas para auxiliar, que mesmo achando aquilo uma loucura, trabalhariam pela remuneração [Já havia o capitalismo àquela época?!]. Noé também pode (e por que não?) ter contado com a ajuda e o trabalho dos homens de alta estatura, os "gigantes e valentes da antiguidade". Isso sem considerar os 120 anos para a construção, que foi tempo mais do que necessário.

Quanto à capacidade de carga, sejamos mais específicos sobre as dimensões da arca.

De acordo com uma estimativa modesta, o tamanho da arca seria de cerca de 135 metros de comprimento, 20 metros de largura e 15 metros de altura. Assim, a arca tinha o volume bruto de uns 40 mil metros cúbicos, resultando num deslocamento quase igual ao do luxuoso transatlântico Titanic (Despertai! de janeiro de  2007, página 20) .

Considerando que a arca era dividida em três compartimentos sobrepostos, então ela tinha uma área total de cerca de 8100 metros quadrados. Isso é importante porque os animais, ao serem colocados em seu interior, não poderiam ser postos uns sobre os outros, ocupando cada metro cúbico da arca; antes, eles ocupariam a arca em metros quadrados.

Quanto ao alimento para os animais, vale algumas considerações. Estima-se que uma pessoa adulta consome uma tonelada de alimento por ano. Considerando uma pessoa com peso médio de 75 quilos e presumindo que o seu volume corporal ocupe o mesmo volume de 75 quilos de alimento, então uma pessoa precisaria de um volume de comida equivalente a 13 vezes o seu volume corporal para poder se alimentar durante um ano. Se for razoável transferir esses valores para a situação dos animais na arca, chega-se à conclusão que, para cada volume ocupado por animal, devia haver 13 volumes idênticos preenchidos por comida e isso significa que os animais poderiam ocupar apenas 1/14 avos do volume total da arca (2857 m3), ou pouco mais de 7%


Devido à necessidade de levar comida, os animais podiam ocupar apenas uma pequena parte da arca

Muito provavelmente esses números não são exatos; alguns animais comem proporcionalmente mais, outros menos e, visto que o alimento específico de cada animal precisava ser acessado diariamente, a acomodação do alimento na arca provavelmente precisaria ser de tal modo que deixasse espaço para locomover-se entre ele; também creio que seria muito difícil compactar sementes, folhas e frutos o suficiente para que o volume de um quilo de alimento equivalesse ao volume de um quilo de qualquer animal na arca. Em todo o caso, isso salienta o quanto é improvável que a arca de Noé coubesse todos os animais que se estima que ela devia levar.

A arca não era tão pequena. Tinha aproximadamente 150x25x15 metros. Ela teria então cerca de 40.500 metros cúbicos. Caberia um prédio de 63 andares dentro dela; e teria capacidade para levar 120 mil animais do tamanho de uma ovelha nela, (e ainda sobraria espaço) (Banzoli).

Segundo a estimativa acima, que é feita dispensando-se toda a carga de comida, seria necessário que se colocasse  pelo menos 15 animais por metro quadrado ou três animais por metro cúbico. A Torre de Vigia considera a possibilidade de que o número de animais na arca poderia ser reduzido para menos de 130 espécies, mas, como se verá mais adiante, estes números são impossíveis. Banzoli, sugere outra possibilidade no mínimo curiosa:

Os animais que hibernam passam longos períodos em repouso absoluto e sono profundo, durante o qual não se alimentam, e o seu ritmo de batimento cardíaco diminui (cerca de um centésimo do normal). A energia necessária para a sobrevivência dos animais que hibernam, é obtida a partir das gorduras armazenadas no seu tecido adiposo (gorduroso), que funciona como um reservatório de energia, as quais são repostas quando o animal voltar à sua atividade normal.
Os animais têm condições de hibernar 18 meses, e eles ficaram menos de treze na arca. Deus deve ter conduzido os animais ao estado de hibernação; as condições também eram favoráveis pra que eles hibernassem: talvez, por ficarem muito tempo parados e no mesmo ambiente, com pouca variedade alimentícia, somado ao frio, a “monotonia” que enfrentaram reduziria a atividade do organismo e os faria hibernar. Com a diminuição do metabolismo, as fezes também seriam mínimas e a quantidade de comida levada por Noé e família seria suficiente para alimentar todos os animais por quase um ano.

Alguns animais hibernam porque evoluíram para isso. Os demais animais, se deixado trancafiados, sem ventilação suficiente e sem espaço para se exercitarem, podem ficar estressado e por fim morrerem.
Desafio: Como Noé conseguiria manter o alimento dos animais fresquinho e livre de fungos por 14 meses? 





As águas do dilúvio – de onde vieram e para onde foram?

Antes do dilúvio, havia água suficiente para cobrir todo o Planeta. Uma "resposta simples" para esta pergunta, é que as águas do dilúvio hoje estão acomodadas nos oceanos, e que a maior parte delas vieram do subterrâneo (Banzoli).

O conceito popular, segundo intepretação que se faz da Bíblia, é que as águas do dilúvio vieram por meio da chuva que durou 40 dias. No entanto, este conceito já não é levado a sério por muitos defensores do dilúvio, dentre uns motivos, porque a água presente nas nuvens era insuficiente para cobrir todos os montes. Isso é cientificamente comprovado. É possível medir com rigor a quantidade de água em um m3 de ar em um dado momento. Com isso, sabendo-se a dimensão da atmosfera por inteira, é possível calcular a quantidade de água nela existente, que é estimada em 12.900 km3 – suficiente para cobrir o globo em apenas 2,5 cm. Isso claramente contraria Gênesis 8:1, pois descarta a possibilidade de que a água, ao baixar progressivamente, tenha sumido pelo processo de evaporação, uma vez que ela na atmosfera não está.

Visto que a água da chuva é descartada como insuficiente para cobrir todos os montes, tal como requer a Bíblia, resta ao defensor do dilúvio adotar duas outras alternativas: (1) afirmar que a maior parte da água veio do subterrâneo e (2) afirmar que os montes da época do dilúvio não eram tão altos como são hoje.

A primeira opção é, em parte, baseada em declarações de Gênesis, que é como segue:

No seiscentésimo ano da vida de Noé, no segundo mês, no dia 17 do mês, nesse dia rebentaram todos os mananciais das vastas águas profundas e abriram-se as comportas dos céus (Gênesis 7:11).
Fecharam-se os mananciais das águas profundas e as comportas dos céus; assim a chuva parou de cair (Gênesis 8:2).

Como eu disse antes, se a Bíblia está sendo questionada na questão do Dilúvio, usá-la como autoridade para prová-lo não faz nenhum sentido, a menos que declarações delas sejam atestadas por informações devidamente embasadas pela ciência. E no que se refere à quantidade de água subterrânea, sabe-se que ela é inferior a 2% da água total da Terra. Assim, é possível afirmar que a água do dilúvio no subterrâneo também não está. Mas teria ela vindo de lá, tal como diz a Bíblia, e agora toda ela está nos oceanos?

Defensores de um dilúvio global sugerem que toda a água de tal cataclismo está nos oceanos e que isso é em consequência de que, por ocasião do dilúvio, e possivelmente causado por ele, regiões da terra se remodelaram, formando-se os grandes montes e os grandes vales oceânicos, onde as águas desde então repousam.

Isso é no que acredita, inclusive, a Torre de Vigia; depois de reafirmar a sua crença de que as águas do dilúvio vieram realmente das chuvas, tal como diz a Bíblia, ela responde à pergunta sobre para onde as águas foram:

Visto que, conforme diz o relato de Gênesis, “todos os altos montes” foram cobertos pela água, onde está agora toda esta água? Evidentemente, bem aqui na terra. Acredita-se que houve época em que os oceanos eram menores e os continentes maiores do que agora, conforme evidenciam canais de rios estendendo-se longe sob os oceanos. Deve-se notar também que cientistas têm declarado que os montes, no passado, eram muito mais baixos do que atualmente, e que até alguns montes foram empurrados para cima de dentro dos mares. Quanto à situação atual, diz-se que “há no oceano um volume dez vezes maior de água do que há terra acima do nível do mar. Lance-se toda esta terra uniformemente no mar, e a água cobrirá a terra inteira com a profundidade de uma milha e meia”. (Revista National Geographic, janeiro de 1945, p. 105) Portanto, após a queda das águas do Dilúvio, mas antes do levantamento dos montes e abaixamento dos leitos dos mares, e antes de se criarem as calotas polares, havia mais do que suficiente água para cobrir “todos os altos montes”, conforme o registro inspirado diz que aconteceu. — Gên 7:19 (Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 1, páginas 717-718).

Ao que parece, os cientistas citados pela Torre de Vigia referem-se a um “passado” de milhões de anos; mas dito assim, sem nenhum esclarecimento, faz parecer que se trata de um “passado” recente. Sobre se esse conceito é válido, discutirei mais adiante, ainda neste subtítulo; mas podia a água ter vindo mesmo do subterrâneo, tal como diz Banzoli?

A respeito disso, vejamos o conceito dele sobre a Pangeia.

Cientistas e geólogos acreditam que no passado, a Terra era um único continente chamado “Pangéia”. A principal evidência que leva a crer que havia um único continente, é a possibilidade de se encaixar os continentes num único e gigante continente, e o encaixe quase perfeito entre o litoral da África e da América do Sul [...] Para a ciência, isto ocorreu na Pangéia, e a única diferença de opinião entre criacionistas e evolucionistas, é em relação a quando ocorreu esta separação dos continentes. Para os evolucionistas, isto teria se dado a milhões de anos atrás; para o criacionismo, os continentes se separaram durante o Dilúvio.

As palavras acimas sequer exigem explicação da minha parte; as próprias declarações do blogleiro de que se trata de uma intepretação, não da ciência, mas criacionista, tira-me toda e qualquer obrigação de refutá-la.

Mas não exige muito esforço para se concluir que esse conceito não tem nenhum fundamento. Por exemplo, os continentes África e América distam cerca de 5000 quilômetros um do outro. Caso a separação deles tivesse ocorrido há cerca de 4.500 anos, o distanciamento entre ambos seria em torno de 1100 metros por ano! Mas a constatação é de que o distanciamento anual é de apenas 2,5 cm. A essa velocidade, conclui-se que a separação teve início há dezenas de milhões de anos, não há meros 4.500 anos.



Para contornar essa evidente constatação, os defensores de uma separação recente argumentam que a velocidade de deslocamento dos continentes foi bem maior no começo; alguns chegam até a especular sobre uma velocidade de 60km/h. Se essa velocidade absurda fosse atingida e mantida por pelo menos algumas horas, e tendo em vista o peso dos continentes envolvidos, creio não haver resistência alguma capaz de reduzir essa velocidade a meros cm/ano, pelo menos não em 4.500 anos. Mais absurdo que isso é saber que a força capaz de fazer os continentes atingirem tamanha velocidade é o rompimento de supostos mananciais subterrâneos, que forneceriam as águas do dilúvio. 

Essa deriva continental repentina, em resultado de rompimento de supostos mananciais, teve origem no conceito de hidroplacas, que foi idealizado pelo engenheiro-mecânico  Walter Brown, em 1980, e é agora chamado de teoria pelos que o adotaram. Segundo Brown, os continentes flutuam porque estão sobre camadas de águas – as hidroplacas. No entanto, em minhas pesquisas não encontrei nenhuma referência de que o conceito dele tenha sido adotado pela comunidade científica; ao contrário, praticamente todas as fontes que fazem referência a esse conceito são páginas criacionistas que visam com ele justificar suas crenças em uma Pangeia de ruptura recente, que, de alguma forma, liberou águas misteriosas para suprir o que a atmosfera deixou faltar (O que faz os continentes se moverem são as células de convecções, que funcionam como esteiras e sobre as quais estão os continentes).

Os defensores do conceito de hidroplacas recorrem muitas vezes a notícias de que se descobriu enormes oceanos no interior da Terra, tão fundos como a mais de 600 km; mas essas notícias são, às vezes, sensacionalistas, sem nenhum embasamento, ou apenas conjecturas baseadas em estudos preliminares, tal como esta publicada na versão online da revista Galileu. Embora o título seja “Cientistas descobrem oceano perto do núcleo da Terra”, a matéria diz já na introdução que se trata de uma possibilidade, não um fato constatado. O Guardian também trata o caso como uma possibilidade, e o fato de o estudo ter sido publicado na revista Science não quer dizer nada. As revistas especializadas publicam esses estudos, não porque são fatos comprovados, mas porque são factíveis. Depois da divulgação, o estudo precisa ser confirmado por outros geólogos para ganhar o status de fato. Nem mesmo a confirmação de que isso seja um fato prova um dilúvio global há 4.500 anos, a menos que outros fatores atestem isso para além de dúvidas.

Segundo o conceito das hidroplacas, depois de se distanciarem uns dos outros, os continentes deixaram entre eles grandes vales oceânicos, e, ao se chocarem uns com os outros, formaram os grandes montes, os quais começaram a crescer logo depois de ficarem 15 côvados (cerca de 7 metros) submersos pelas águas jorradas repentinamente pelos mananciais.  Essa explicação para o surgimento dos grandes montes, como o Everest, é semelhante à explicação da Torre de Vigia, embora, para ela, os grandes montes e vales oceânicos tenham surgidos apenas em resultado das pesadas e revoltas águas do dilúvio. Esse conceito de transformação repentina e recente é invocado, na maioria das vezes, para justificar como tão pouca água foi capaz de cobrir todos os montes no tal dilúvio.

As pessoas geralmente imaginam que as águas do dilúvio teriam que cobrir montanhas gigantescas, como o Everest, que tem mais de oito mil metros de altura. É claro que não há água suficiente para cobrir montanhas tão gigantes como o Everest, isso é verdade; para cobrir uma montanha tão alta como o Everest, a mais alta do mundo, seria preciso 4,4 bilhões de metros cúbicos (m³) de água; só que antes do dilúvio, as montanhas não eram tão altas. Não precisaríamos ter 4,4 bilhões de m³ de água, porque as formações geológicas antediluvianas eram totalmente diferentes.
Assim, quem disse que não haveria água suficiente para cobrir o planeta? Se a superfície da Terra fosse plana, sem montanhas ou bacias oceânicas, ela seria coberta por uma camada de água com 3 km de profundidade; ou seja: as águas do dilúvio atingiriam até três quilômetros acima da superfície terrestre. Visto que as águas do dilúvio alcançaram 15 côvados [cerca de 7 metros] de altura acima de TODOS os montes, isto significa que as montanhas antediluvianas mais altas, teriam menos de três quilômetros de altura (uma média de 2,5 km) (Banzoli).

Considerando que, por ocasião do dilúvio, o monte que hoje chamamos de Everest, tivesse a altura de 2.500 metros, é surpreendente que tenha alcançado a altura de quase 9 mil quilômetros em apenas 4.500 anos.


Mas vejamos algumas informações sobre isso. Já em 1856, em um grande projeto de pesquisa executado pela Índia, que ficou conhecido como Grande Levantamento Trigonométrico, constatou-se que a altura do monte Everest era de 8840 metros. Pressupondo que ele tenha começado a crescer cerca de 4.500 anos atrás, partindo de 2.500 metros, então conclui-se que crescia a uma velocidade de quase 1,5 metros por ano. Se os defensores da ideia de um Everest recente estivessem certo, no início deste século o Everest teria crescido mais de 200 metros e alcançado a altura de mais de 9.000 km. Estranhamente, porém, segundo dados recentes, a altura do Everest é de apenas 8.848 metros (8.844, se desconsiderado a cobertura de gelo acima de seu pico). Ao passo que alguns podem deduzir que ele cresceu 8 metros desde 1856, outros podem concluir que essa diferença pode estar mais relacionada com melhor precisão nas medidas. Novamente, defensores do dilúvio global argumentam que o crescimento dos montes foi rápido logo após o dilúvio e vem desacelerando desde há algum tempo. Examinado tudo isso, resta dizer que o Everest cresce a uma taxa de 0,5 cm por ano, o que está mais de acordo com um crescimento lento, que transcorre desde há milhões de anos (O Monte Everest surgiu em resultado de que a massa terrestre que hoje chamamos de Índia chocou-se contra a Placa Eurasiana; esse choque foi há milhões de anos, mas a uma velocidade de centímetros por ano. Veja imagem abaixo).




Ainda em defesa de que as águas de um dilúvio (tão recente como há 4.500 anos) cobriram todo o monte Everest (que não media mais do que 2.500 metros), cita-se o fato de existirem conchas marinhas no alto do grande monte, e que elas não tinham outro jeito de pararem lá no alto, senão pelas águas do dilúvio. Sobre a presença de conchas em seu pico, e sobre como este grande monte veio a ser o que é, vale assistir o vídeo abaixo. 



O evolucionismo tem uma interpretação similar à criacionista sobre o processo da formação de montanhas: segundo o evolucionismo, as grandes cadeias de montanhas se formaram através de “violentas transformações na crosta terrestre (litosfera)” (Banzoli).

As declarações acima, ainda que entre aspas, não dizem exatamente o que Banzoli quer que elas digam. As “violentas transformações na crosta terrestre”, segundo os geólogos (porque os “evolucionistas” nada tem a dizer sobre geologia), ocorreram no decurso de milhões de anos, tal como foi e está sendo o caso da formação do Himalaia com o seu grande monte Everest. Isso está longe de ser “similar” às opiniões de que “as violentas transformações na crosta terrestre” são coisas de alguns poucos milhares de anos.

Depois desse exame, a conclusão é que simplesmente não é possível afirmar que há 4.500 anos um dilúvio global cobriu todos os montes do planeta Terra. Definitivamente não havia água suficiente, nem nas nuvens nem no subterrâneo; e não adianta dizer que os oceanos eram mais rasos e os montes não eram tão altos. No aspecto geral, os oceanos e os montes são o que são há milhões de anos.


Como os peixes de água doce sobreviveram?

Os peixes estão adaptados quer à água salgada, quer à água doce. Se as águas mais abundantes dos oceanos, depois de se juntarem com as águas dos mananciais rompidos, subiram tanto ao ponto de cobrirem todos os montes, então tal água salgada, ao se misturarem com a água doce dos rios e lagos, acabariam por matar todos os peixes de água doce. Banzoli resolve a situação por afirmar que, durante o dilúvio, (1) formou-se muitos bolsões de água doce e que (2) a água dos oceanos só ficou tão salgada quanto é hoje por causa do rompimento dos mananciais, os quais forneceram as águas do dilúvio.

A alternativa 2 não mais será discutida aqui, pois no subtítulo anterior já foi descartada como inválida. Sobre bolsões de água doce, Banzoli cita o caso do Mar Negro onde, segundo ele, há água salgada em cima e água doce no fundo, sem se misturarem, desde há 4.500 anos (sobre possível formação de bolsões de água doce por todo o planeta em um dilúvio global, veja este link). Não consegui nenhuma fonte que atestasse a afirmação de que há água doce no fundo do Mar Negro, por isso nada posso dizer quanto a se é verdadeira ou falsa. É verdade que várias equipes de geólogos encontraram evidências de que, por volta de 6 a 8 mil anos, o Mar Negro parece ter sido repentinamente alagado por águas do Mediterrâneo, de modo que as suas margens atuais estão bem além do que eram anteriormente. A foto aérea abaixo sinaliza em azul escuro o que seria o Mar Negro antes de uma provável inundação, cuja causa exata não se sabe. Por aquela época, no nordeste da Europa, havia muitos degelos resultantes do fim da última glaciação, e eles podem ter causado grandes e repentinas inundações, as quais podem ter dado origem a muitos mitos de dilúvio. 



Outra possibilidade é que um terremoto pode ter rompido o istmo que liga Trácia e Anatólia, fazendo assim que as águas salgadas do Mar Mediterrâneo invadissem o Mar Negro, que seria então um mar de água doce.




  
Seja lá o que tenha causado a inundação do Mar Negro, este evento por si só, caso seja verdadeiro, não prova um dilúvio global, quando muito um dilúvio local.


Adaptação ao aumento de salinidade. É possível?

Independente de qual a teoria correta sobre a origem do sal, após o dilúvio, a maior catástrofe sísmica do planeta, a taxa de salinidade dos oceanos deve ter aumentado muito. O dilúvio “lavou” todo o planeta, as rochas foram gastas pela queda contínua de chuva e pelas bruscas mudanças geológicas que a superfície passava; e acredita-se que centenas de vulcões submarinos entraram em erupção durante o ano em que durou o dilúvio, a partir de quando as fontes subterrâneas se romperam, e as placas continentais começaram a se partir, formando o que chamamos hoje de “anel de fogo dos oceanos”. Isto teria liberado muita lava nos oceanos, e colaborado para um grande aumento do sal. Não se pode afirmar que no período Antediluviano os peixes seriam adaptados apenas à água doce. Acreditamos que os peixes tiveram que se adaptarem a apenas um tipo de água (doce ou salgada, ou a ambas) só após o dilúvio, já que antes do dilúvio os oceanos não continham a mesma densidade de sal. Devido a isolamentos de habitat as novas espécies de peixes e seres aquáticos foram se tornando menos adaptadas à água salgada ou à doce. [...] Com o aumento da salinidade após o dilúvio, os peixes que não encontraram água doce, tiveram que lutar para se adaptar; os que não conseguiram se adaptar ao novo ambiente, foram extintos [...] Isto talvez explique o alto número de espécies marinhas extintas: os seres aquáticos são os mais numerosos e os mais extintos do reino animal. Porém, a capacidade de se adaptar à mudança de ambiente é uma característica natural de todos os seres vivos. Acredita-se que todos os peixes possam se adaptarem a uma certa variação de salinidade, assim alguns indivíduos seriam capazes de sobreviver à mescla gradual das águas, e a troca gradual de salinidade durante e após o Dilúvio. [...] O fato de os salmões poderem viver tanto em água doce como em água salgada, pode ser sinal de que, na luta para se adaptar, eles conseguiram se adaptarem a ambos os tipos de água (Banzoli).

Não é tão fácil assim. Há todo um processo que leva uma espécie a se adaptar a um ambiente, que, no final das contas, trata-se de evolução – coisa que Banzoli provavelmente não aceita. Admitindo-se que houve repentino aumento da salinidade dos oceanos, somente sobreviveriam aquelas espécies que já possuísse capacidade de sobreviver a um aumento de salinidade, pois a “adaptação” das espécies a novo ambiente dá-se por seleção natural (o ambiente em transformação seleciona as espécies aptas a continuarem existindo); não há adaptação por vontade, ânsia ou desespero dos indivíduos; para que uma espécie possa ser selecionada a viver num ambiente em transformação, ela precisa mudar, e essa mudança ocorre por mutação genética (que é produto do acaso), e esse processo é lento, podendo levar milhares ou milhões de anos. Diante disso, as espécies que se adaptam o fazem à medida que o ambiente muda; mas então, no transcurso de milhares ou milhões de anos, elas já serão outras espécies, as quais foram selecionadas pelo ambiente em transformação, em detrimento de seus ancestrais agora extintos. Se os oceanos aumentaram sua salinidade bruscamente, num período de um ano, então praticamente os milhares de espécies de peixes deveriam ter sido extintos. Se alguns sobreviveram, em razão de já estarem adaptados a uma maior salinidade, os cerca de 4.500 anos que se passaram desde então não são suficientes para gerar todas as 54 mil espécies de peixes agora existentes. A evolução envolve mudanças e variação nas espécies, mas definitivamente não opera em tamanha velocidade.


Caberia tantos animais na arca?

Os defensores de um dilúvio global reconhecem que arca de Noé era demasiadamente pequena para caber todos as espécies de animais hoje existentes. Assim, tanto Banzoli como a Torre de Vigia fazem grandes esforços para passar a ideia de que o livro de Gênesis usa a palavra “espécie” num sentido diferente do sentido convencional, tal como geralmente usado atualmente. Ela teria mais ou menos o sentido de “família” ou “gênero”. Assim, bastaria Noé colocar na arca um casal representante de cada família de animais, ou um casal de gênero de todas as famílias, para que esses membros representantes gerassem todas as cerca de 8 milhões de espécies agora existentes, das quais mais de um milhão já foram descritas e catalogadas. Não vou aqui discorrer sobre o sentido bíblico da palavra “espécie” porque não sei absolutamente nada de hebraico. Assim, aceitarei como fato o que diz tanto Banzoli como a Torre de Vigia.

A arca não seria capaz de comportar tudo o que atualmente se chama de espécies. Seria um erro nosso pensar que as espécies que Noé colocou na arca seriam iguais às classificações biológicas atuais. Até poucos séculos atrás, a própria palavra espécie não tinha o mesmo significado de hoje. Precisamos lembrar também que a palavra hebraica “Myin”, traduzida nas escrituras por “espécie”, significa “Tipos ou Formas básicas”. As espécies bíblicas são os “tipos básicos”, equivalentes aproximadamente ao nível de Famílias e Gêneros, na classificação taxonômica (Banzoli).
Em anos recentes, o termo “espécie” tem sido aplicado dum modo que, quando comparado com a palavra “espécie” na Bíblia, causa certa confusão. O sentido básico de “espécie” é “casta, natureza, qualidade, tipo”. Na terminologia biológica, porém, aplica-se a um grupo de animais ou plantas capazes de cruzamento fértil, que possuem mutuamente uma ou mais características distintivas. De modo que pode haver muitas dessas espécies ou variedades dentro de uma única divisão das “espécies” de Gênesis (Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 2, página 21).

Além de apelarem para esse recurso no mínimo duvidoso, diz ainda a Torre de Vigia que muitos anfíbios e répteis podiam ser deixados fora da arca; Banzoli exclui também os artrópodes (aranhas, escorpiões, centopeias, abelhas, etc), sugere que Noé podia colocar na arca apenas animais ainda filhotes, e as aves podiam ser substituídas por ovos. 




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Dito isso, é preciso salientar que geralmente os defensores do dilúvio global de Noé são também criacionistas, isto é, acreditam que Deus criou todos os animais, cada um segundo as suas espécies, e que as espécies não evoluem. Um gato foi e sempre será um gato, um cavalo foi e sempre será um cavalo, e assim por diante.  Além disso, as espécies, de acordo com Gênesis e segundo a intepretação deles, são demarcadas de acordo com o limite em que o cruzamento entre indivíduos gera descendentes férteis. Ultrapassado esse limite, já não se trata da mesma espécie.

As “espécies” bíblicas parecem constituir divisões de formas de vida em que cada divisão permite o cruzamento fértil dentro de seus limites. Neste caso, os limites entre as “espécies” devem estar demarcados no ponto em que a fecundação deixa de ocorrer (Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 2, página 21).
Ele [Frank L. Marsh] propôs que deveríamos classificar os seres vivos de acordo com a sua capacidade de combinação genética, ou seja, os grupos que tem capacidade genética de cruzarem entre si pertenceriam à mesma espécie básica criada – ou baramin. Este princípio foi aceito por muitos criacionistas, pois acredita-se que as espécies originalmente criadas por Deus se diversificaram, e abrangem estes grupos (capazes de, geneticamente cruzarem entre-si) (Banzoli:).

Estabelecido esse ponto, e quando comparamos com o conceito mostrado anteriormente, de que o termo “espécie”, segundo Gênesis, refere-se a “tipos básicos”, constata-se que, por serem criacionistas, os defensores de um dilúvio global são forçados a negar a evolução das espécies e fazem isso quando dizem que o termo “espécie”, segundo Gênesis, refere-se a indivíduos que são capazes de gerar descendentes férteis. Esse conceito, se levado a sério, requeria que todos os animais hoje existentes tivessem sidos representados na arca por pelo menos um casal de suas respectivas espécies; mas, em razão de a arca de Noé não ser capaz de conter todos os milhões de espécies, eles se veem forçados a dizer, até num mesmo artigo, às vezes até num mesmo parágrafo, que as espécies de Gênesis se referem a “tipos básicos”, algo como família ou gênero.

Essa incômoda constatação evidentemente é percebida tanto pela Torre de Vigia como por Banzoli. Nota-se isso nos verbetes Espécie e Arca da obra Estudo Perspicaz das Escrituras, bem como no artigo de Banzoli, sob o tópico Baraminologia. Vê-se nesses textos a evidente intenção de confundir o leitor quando se faz um jogo de palavras em que muito é dito, mas sem que nada se explique. A Torre de Vigia, por exemplo, usa os termos “família” e “espécie” como se sinônimos fossem e associa a eles a palavra “variedades” para dizer que, embora haja variedade de um certo animal, essa variedade ainda compõe uma mesma “família” ou “espécie”.

Ora, o que significa espécie segundo a biologia moderna? Vejamos.

Espécie - Categoria taxonômica fundamental que se encontra abaixo da categoria de gênero e é constituída por indivíduos muito semelhantes entre si. Designa um grupo de organismos, de animais ou vegetais, intimamente relacionados e fisicamente semelhantes, com determinados caracteres comuns e a faculdade de reproduzir-se entre si, e que são menos comumente capazes de cruzamento fértil com membros de outros grupos. (No caso de seres que se reproduzem assexuadamente, conjunto de indivíduos muito semelhantes, oriundos de indivíduos também idênticos a eles.) (Michaelis,versão online).

Se o significado de espécie segundo a Bíblia significa também indivíduos capazes de gerar descendentes férteis entre si, então tanto a biologia moderna como a Bíblia estão falando a mesma língua. É claro que Moisés não conhecia a classificação taxonômica moderna, mas, por observação, conhecia muito bem os animais que eram capazes de se acasalar e gerar desdentes férteis. Por isso, sabemos muito bem o que ele queria dizer com a palavra que as Bíblias modernas traduzem por espécie. Aliás, não é esse o critério usado para se fazer uma boa tradução? Por que alguém, há algum século, traduziu a dita palavra hebraica por espécie? Por que ela não foi traduzida por “gênero” ou “família”, como pretendem os defensores de um dilúvio global?

Mas consideremos que o sentido de espécie, conforme usado em Gênesis, seja assim como interpretam os defensores do dilúvio global. O que exatamente isso significa e quais as implicações de se aceitar esse conceito? 

Bem, imagine que o dilúvio é agora e você é Noé. Sua incumbência é selecionar muitos casais de animais de modo que, num futuro não muito distante, no máximo 4500 anos, o planeta esteja povoado com todas as espécies de animais que você ver por aí.

Escolha, por exemplo, um animal ruminante. Sim, o Noé bíblico deve ter escolhido um animal ruminante, pois há ruminantes por toda a parte. Esse ruminante devia ser herbívoro, pois todos os ruminantes que conheço são herbívoros. Também possuem cascos com dois dedos (casco partido, segundo Levítico) e os machos possuem chifres. Diante dessas características, talvez não seja difícil para você encontrar um casal para representar essa família (não só um casal, mas tanto quanto sete casais, porque Moisés estipulou que animais de casco partido eram limpos). E, apenas para que não pairem dúvidas, sejamos específicos sobre que tipo de espécie se estar a falar. Trata-se de espécies que são capazes de gerar descendentes férteis. Os defensores de um dilúvio global gostam de falar de outro tipo de espécie, “tipos básicos”, como família ou gênero, embora digam também que se trata de espécies que são capazes de gerar descendentes férteis. Seja lá o que eles querem dizer, o nosso Noé moderno jamais tomaria como casal um macho caprino e uma fêmea ovina; também não pegaria um macho impala para fazer par com uma fêmea gnu.  Esses animais são parentes próximos, mas não geram dessedentes férteis; portanto seria inútil levar casais assim para a arca, pois ocuparia espaço desnecessariamente. Então, feito a escolha, e levando em conta que uma espécie não evoluem em outra (segundo o conceito criacionista), repentinamente você relembra sua incumbência e ver-se num impasse: como fazer que apenas setes casais de ruminantes gerem todas as espécies de ruminantes que há no planeta?

Lembre-se do que diz a Torre de Vigia:

Desde os mais antigos registros humanos até agora, a evidência é no sentido de que cães ainda são cães, gatos continuam a ser gatos, e elefantes têm sido e sempre serão elefantes (Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 2, página 22).

Diante disso, você olha para seu animal escolhido, digamos, sete casais de gnus. Se é um fato que cães serão eternamente cães, e gatos, eternamente gatos, então os seus sete casais de gnus serão eternamente gnus. Que dizer se você escolher um casal de felino, seja um casal de leão ou um casal de tigre? Se um leão sempre será um leão, se um tigre sempre será um tigre, como fazer que um único casal de felino forme todas as espécies de felinos que há pelo mundo, como leopardo, onça-pintada, jaguatirica, gato-preto-dos-andes, gato-do-mato, lince-pardo, guepardo, leopardo-asiático, gato-pescador e uma infinidade de outros?

Seu espanto aumenta consideravelmente quando ler as seguintes palavras da Torre de Vigia:

Alguns pesquisadores têm dito que, se tivesse havido apenas 43 “espécies” de mamíferos, 74 “espécies” de aves e 10 “espécies” de répteis na arca, elas poderiam ter produzido a variedade de espécies conhecidas atualmente (Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 1, página 179).

Nossa, quem foram esses pesquisadores?! Nosso Noé moderno está em apuros, um grande dilúvio se aproxima, a espécie humana está em perigo, e ele precisa salvar todas as espécies de animais da terra... E não pode sequer consultar esses pesquisadores para saber que espécies escolher. Sem nomes, sem telefone, sem endereço.... Que apuros, meu pobre Noé!

E não adianta consultar Banzoli, porque ele não tem uma opção melhor, mas repete quase na íntegra a enciclopédia da Torre de Vigia:

Alguns pesquisadores têm dito que, caso houvesse tão poucos exemplares na arca, quanto quarenta e três “tipos básicos” de mamíferos, setenta e quatro “tipos básicos” de aves, e dez tipos básicos de répteis na arca, eles poderiam produzir a variedade de espécies, gêneros e famílias que conhecemos atualmente.

Mas não se desespere, pobre Noé!  Respire fundo, sente-se, relaxe; pois Banzoli tira da cartola a solução por você inimaginável:

Que a grande variedade da vida animal hoje conhecida poderia ter sido reproduzida de tão poucas “Espécies Criadas”, é provado pela infinita variedade da espécie humana — pessoas baixas, altas, gordas, magras, com incontáveis variações da cor dos cabelos, dos olhos e da pele — todas as quais surgiram da única família de Noé

Ou melhor, tirou, não da cartola, mas de Estudo Perspicaz das Escrituras, que diz exatamente a mesma coisa, com quase exatamente as mesmas palavras.

Mas espera, como isso é possível?!

Não é verdade que gato será eternamente gato; elefante, eternamente elefante, e cão, eternamente cão?

E não é verdade também que humanos serão eternamente humanos? Então como a “variedade” de humanos – gordos, magros, altos, baixos – podem justificar que um casal de felino resulte na infinidade de felinos que há por toda a parte?

Essa ideia de que variações dentro da espécie justifica a diversidade de espécies como sendo “produto” de apenas algumas espécies constitui a falácia do espantalhoé bastante difundida pela internet:

Tomemos o exemplo dos cães: será que Noé teria que levar (por exemplo) dois pastores alemães, dois poodles, dois doberman, dois pitbull e assim por diante? Não; tudo o que ele precisava de fazer era levar um par de cães – algo parecido a um lobo, contendo muito mais variação genética. Nós sabemos que algumas variedades de cães actuais foram produzidas a partir dum cão com a aparência dum lobo em apenas alguns milhares de anos.

E a página Desperta, para corroborar a ideia, apresenta imagem à esquerda: 


Mas esse argumento falacioso não responde à questão sobre se a arca de Noé cabia todas as espécies de animais que hoje existem. É evidente que Noé não precisava levar todas as raças de cães que conhecemos, também é evidente que não precisava constar na arca duas pessoas gordas, nem duas pessoas magras, nem duas pessoas altas, pois as variações da espécie não é o mesmo que diversidade de espécies; cão é cão, seja ele pastor-alemão, rottweiler, buldogue ou poodle; e humano é humano, seja ele negro, branco ou amarelo. Os cães geram descendentes férteis quando cruzam entre si; portanto, embora seja verdade que o cão evoluiu a partir de uma espécie de lobo, cães e lobos já não geram descendentes férteis e assim já não são uma só espécie, como teria de ser de acordo com o conceito de que lobo sempre será lobo e cão sempre será cão. Referente a humanos, acontece a mesma coisa; e isso está de acordo com a regra criacionista de que uma espécie não evolui em outra, embora possa haver variações dentro da espécie.

Se esse critério é válido para cães e humanos, então deve ser válido para qualquer outra espécie de animal hoje existente. Tigre sempre foi tigre e gato sempre foi gato. Se um tigre sempre foi um tigre, então havia um casal de tigre na arca de Noé; se um gato sempre foi gato, então havia um casal de gato na arca de Noé. O mesmo é válido para leão, leopardo, onça-pintada, pantera-nebulosa-de-borneu, gato-marmoreado, cacaral, gato-dourado-africano, lince-asiático, lince-ibérico, lince-pardo e todas as espécies de felinos que você possa imaginar. Contrário ao que acontece com cães, elefantes e gatos, que geram descendentes férteis quando cruzam com membros de sua própria espécie, os felinos que citei, e todo os demais que você conhece, são espécies diferentes e geram descendentes híbridos na maioria das vezes inférteis. Portanto, seguindo a lógica criacionista, que é adotada pelos defensores de um dilúvio global, tinha de haver um local na arca para cada casal desses animais. O mesmo vale para macaco-javanês, babuíno-gelado, babuíno-sagrado, macaco-de-gilbraltar e saguinus imperador e uma infinidade de outras espécies. Também há javalis, camelos, lhamas, girafas, antílopes e todas as espécies de ruminantes, que ascendem às centenas. A listra continua e ascendem aos milhares, muitos milhares se formos realistas e levarmos mais a sério o relato bíblico, que, contrário ao que Banzoli sugere, foi bem específico ao dizer que Noé devia incluir aves (nada se fala sobre ovos) entre os passageiros de seu grande barco; e de fato há o relato do corvo e pomba que foram soltos por Noé.

Portanto, o argumento de que os animais que hoje conhecemos são todos descendentes de apenas algumas espécies selecionadas por Noé não têm fundamento algum. E dizer que “espécie”, segundo a Bíblia, não é espécie segundo o conceito convencional, mas “tipos básicos”, não resolve a questão, pois significa admitir que uma espécie pode evoluir em outra, tal como um casal de leão evoluir em tigres, jaguatiricas, guepardos e linces-pardo. E de fato é isso que os defensores de um dilúvio global dizem que ocorre, mas preferem chamar de variação da “espécie”.

Assim, parafraseando Ronald Frye... Diante do exposto, digam o que digam tais defensores, façam o que façam, podem pular e sapatear em torno de “espécie”; atribuam-lhe o sentido que quiserem, mas espécie é espécie, gênero é gênero e família é família. Uma espécie de macaco, se dividida em dois grupos, pode, no decorrer de milhares ou milhões de anos, transformar-se em dois gêneros de macacos, porque seus membros, ao se modificarem geneticamente, já não geram descendentes férteis caso voltem a cruzar com membros do outro grupo; mas então, nessa época, os criacionistas e defensores do dilúvio global estarão dizendo o mesmo que dizem hoje, que macaco sempre será macaco e grilo sempre será grilo, e assim prosseguirão na monotonia de um cricrilar sem fim.


O dilúvio global nas entrelinhas da Bíblia

Para este subtítulo, vale relembrar o conceito de “tipos básicos” nas palavras da Torre de Vigia:

Em vista do precedente, torna-se claro que Noé pôde acomodar todos os animais necessários dentro da arca, a fim de serem preservados durante o Dilúvio. [...]Jeová Deus sabia que só era necessário salvar membros representativos das diferentes “espécies”, visto que eles se reproduziriam em variedade depois do Dilúvio. Depois do recuo das águas do Dilúvio, estas comparativamente poucas “espécies” básicas saíram da arca e se espalharam pela superfície da terra, por fim produzindo muitas variações das suas “espécies”. Embora muitas variedades novas tenham surgido desde o Dilúvio, as “espécies” sobreviventes têm permanecido fixas e imutáveis, em harmonia com a imutável palavra de Jeová Deus. (Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 2, página 22).

Os “membros representativas das diferentes espécies”, segundo a Torre de Vigia, são casais de animais que representam uma família ou gênero de animal, como felídeos, bovídeos, equídeos, etc. Nota-se isso se você conseguir desembaraçar-se do jogo de palavras comumente usados, como nos casos abaixo:

De modo similar, no reino animal, pode haver muitas variedades de gatos, todos pertencentes a uma só família de gatos ou “espécie” felina (Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 2, página 22).
Alguns calcularam que as centenas de milhares de espécies de animais atuais poderiam ser reduzidas a comparativamente poucas “espécies” de famílias — a espécie eqüina e a espécie bovina, para se mencionar apenas duas (Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 1, página 179).

Como escrevi anteriormente, esse conceito de “tipos básicos” ou “espécies representativas” foi idealizado para justificar como poucos animais poderiam, no fim de um tempo, gerar todos os animais hoje existentes no planeta. Mas esse conceito pode ser posto à prova nas próprias palavras da Torre de Vigia e até na própria Bíblia.

Por exemplo, ao apresentar o que seria possíveis provas de um dilúvio global, a Torre de Vigia escreveu:

Os restos fósseis de muitos outros animais, tais como leões, tigres, ursos e alces, foram encontrados nas mesmas camadas, indicando talvez que todas essas criaturas foram destruídas simultaneamente. Alguns têm indicado tais achados como prova física inequívoca duma rápida mudança no clima e duma destruição repentina causada por uma inundação universal (Estudos Perspicaz das Escrituras, volume 1, página 718).

Tendo em mente a ideia de “tipos básicos” ou “membros representativos”, não é estranho que tenha havido leões e tigres antes do dilúvio e que depois do dilúvio tenha voltado a haver leões e tigres?  Leões e leopardos são citados ainda no Velho Testamento, menos de dois mil anos após o dilúvio – tempo insuficiente para qualquer ancestral selecionado por Noé gerar duas espécies de felinos. Não nos leva isso à conclusão de que, contrariando a ideia de “tipos básicos”, havia na arca não só leões, tigres e leopardos, mas diversas outras espécies de felinos?

A situação se agrava mais quando se traz à memória o gênero canídeo, que a Bíblia apresenta nas espécies de lobo, cão, chacal e raposa. Os três primeiros foram citados ainda por Moisés, por volta do século 16 ou 17 a.C., surpreendentemente antes de se passar 1000 anos do suposto dilúvio (Gênesis 49: 27; Êxodo 11:7; Jó 30: 29; Juízes 15: 4). Moisés também cita quatro cervídeos em um só versículo quando faz referência a cervo, gazela, corço e antílope (Deuteronômio 14: 5). O gênero equídeo surge com cavalo, jumento e “jumento selvagem”, que a enciclopédia da Torre de Vigia descreve como sendo a zebra – todos eles citados por Moisés (Gênesis 22:3; 49:17 e Jó 24:5). E para desestimular a que alguém se apresente e diga que cavalo e jumento são variações da mesma espécie, Absalão surge à nossa frente cavalgando uma mula, o que atesta em definitivo que – cerca de 1300 anos após o suposto dilúvio – cavalo e jumento já eram duas espécies diferentes, incapazes de gerar descendentes férteis (2 Samuel 18:9).  O capítulo 11 de levítico, que traz a relação dos animais impuros, lista três roedores, que são gerbo, espálace e lebre; e os suínos são represados por javali e porco (Levítico 11:7; Salmo 80: 13).

O capítulo 11 de levítico ainda relaciona diversas aves de rapina, diversas aves aquáticas e várias espécies de lagartos:

(Levítico 11:13-19) “‘Estas são as criaturas voadoras que vocês devem considerar repugnantes; elas não devem ser comidas, pois são repugnantes: a águia, a águia-pesqueira, o abutre-fusco, o milhafre-real e todos os tipos de milhafre-preto, toda espécie de corvo, o avestruz, a coruja, a gaivota, toda espécie de falcão, o mocho-galego, o corvo-marinho, o bufo-pequeno, o cisne, o pelicano, o abutre, a cegonha, toda espécie de garça, a poupa e o morcego.
(Levítico 11:29, 30) “‘Estas são as criaturas que fervilham sobre a terra que são impuras para vocês: o rato-toupeira, o rato comum, toda espécie de lagarto, a lagartixa, o lagarto grande, a salamandra, o lagarto-da-areia e o camaleão.

Diante do exposto, vê-se que o conceito de “tipos básicos” ou “”membros representativos”, caso seja realmente o sentido da palavra hebraica traduzida por “espécie, não foi nem um pouco levado a sério por Moisés. Considerando que 1000 anos, e até mesmo 2000 mil anos, é tempo insuficiente para um ancestral equídeo evoluir em espécies diferentes, como é possível que em tão pouco tempo haja na Palestina três espécies do gênero equídeo? Que dizer dos cervídeos gazela, corço, cervo e antílope, e dos canídeos lobo, cão, chacal e raposa?  Será que Moisés, apesar da ordem divina (?) de levar para a arca apenas os “tipos básicos”, considerou que, bom... Já que está sobrando um espacinho aqui na arca, por que não levar quatro espécies de cervídeos? Isso elevaria para 28 o número de casais deste único gênero, mas nada que preocupasse Moisés; ele estava deprimido com a monotonia dos últimos anos, sem nada do que fazer, a não ser assistir aos Nefilins construindo aquela arca monstruosa, assustadora e feia. Agora não, agora ele ia arranjar trabalho para todo mundo, muita bosta para limpar, trabalho para dias inteiros, noites inteiras. Sua esposa, noras e filhos não iam ter do que reclamar.

Piada à parte, parece lógico concluir que Noé levou a sério o conceito de “tipos básicos”?  Tendo em vista que 2000 anos é tempo insuficiente para uma espécie evoluir em outras, não faz mais sentido concluir que Noé colocou na arca cada uma das espécies citadas nos parágrafos anteriores, bem como também todas as espécies de animais do planeta, todas as espécies de mamíferos e todas as espécies de aves? 

Ah, não cabem todos?!  Bem, neste caso, não faz mais sentido concluir que não houve dilúvio global algum?


Genética e dispersão

É bem conhecido que casamentos incestuosos têm grandes riscos de gerar filhos com defeitos congênitos. Após o dilúvio, os netos de Noé podiam relacionar-se apenas com parentes consanguíneos, como pais, filhos, irmãos e primos. O mesmo pode-se dizer dos animais.

Em seu artigo, sob o tópico “Variação após o dilúvio”, Banzoli cita este link para provar que um único casal de cães pode gerar todas as espécies de cães que há no mundo. Com isso, ele queria provar que as poucas espécies de animais na arca de Noé foram capazes de gerar todas as espécies de animais hoje existentes. Mas o que Banzoli não percebeu é que o artigo contém informações que atesta o quanto é improvável a história de Noé, tal como relatada na Bíblia. Ao abordar as muitas doenças resultantes de cruzamentos incestuosos provocados pelos donos de cães, que têm o objetivo de melhorar as raças para melhor comercialização, o artigo apresenta justamente o que poderia ter acontecido com as diversas espécies de animais que, ao saírem da arca, tinham como únicos parceiros sexuais os membros imediatos da família (os animais limpos, com sete casais, tinham uma certa vantagem em relação aos animais impuros, mas sabe-se que mesmo uma espécie com apenas 10 000 indivíduos oferece pouca variedade genética, coisa que sujeita-os facilmente à extinção em razão de uma doença genética poder propagar-se sem qualquer obstáculo).

Claro, se Deus interviu no reino animal e bloqueou quaisquer defeitos genéticos...

Somente Deus estaria apto a escolher o "melhor material genético", os exemplares mais capazes de sobreviverem e de suportarem a todos os eventos e circunstâncias, durante e depois do dilúvio (Banzoli).

A Torre de Vigia abordou esse problema, mas apenas com relação a humanos, e não fez qualquer referência ao caso dos dias de Noé (A Sentinela de 1º de agosto de 1975, páginas 456-458).

Não vou aprofundar-me neste assunto porque o artigo anterior neste blog já apresenta detalhes suficientes. Vale conferir aqui, sob o tópico Diversidade genética.

A respeito de dispersão e como os animais se tornaram “endêmicos” (exclusivos de uma ilha, continente ou região), Banzoli, sob o tópico “Variação após o dilúvio”, faz várias afirmações genéricas sobre como os animais podem ter-se tornado endêmicos, mas todas absolutamente especulativas, baseadas na ideia de que o dilúvio foi um fato, o que configura a falácia do raciocínio circular. Ele também trata do assunto sob o tópico “Como animais específicos de uma região foram até a arca”. Depois de afirmar que Deus pessoalmente trouxe os animais até Noé, Banzoli passa a justificar como os animais, depois do dilúvio, podem ter-se tornado endêmicos. Em resumo, ele diz que havia florestas abundantes por todo o planeta, quase nenhum predador, e os animais se espalharam por toda a parte, mas que, com tempo, devido à destruição ambiental, animais de uma mesma espécie foram extintos em diversas partes, ficando restritos apenas em poucas regiões ou ilhas. Essa ideia à primeira vista faz sentido; porém, onde está a evidência de que os animais que hoje são endêmicos de uma região estiveram, em um passado recente, por todo o planeta, ou pelo menos em uma dada região enquanto faziam o seu trajeto do monte Ararate até onde estão?

Aqui na minha região, à roda de amigos, conta-se a história de um ladrão que furtou um saco de farinha em uma casa vizinha. Muito distraído, esse ladrão não percebeu que no saco de farinha havia um furo, e, par a infelicidade dele, acabou marcando com uma trilha o caminho até sua casa. Que o ladrão foi descoberto, e como, você já sabe. Algo inverso poderia ser feito para descobrirmos de onde vieram os animais que hoje são endêmicos de uma região. Por exemplo, se há lêmures apenas em Madagáscar, se há tatu e bicho-preguiça apenas nas Américas, se há urso-polar apenas no Ártico, e canguru apenas na Austrália, não deveríamos poder encontrar vestígios de que, em um passado recente, esses animais estiveram nas proximidades do monte Ararate? Esses vestígios poderiam ser fósseis, pinturas nas cavernas, e até relatos escritos, mas absolutamente nada disso consta. E não é que vestígios algum existam; em cada região, desde há milhares de anos, o homem tem deixado sinais dos animais de sua região, como pode ser visto nos desenhos rupestres por todo o mundo. Assim, se em um passado recente todos as espécies de animais do planeta estiveram nas proximidades do monte Ararate, não deveríamos encontrar por lá os vestígios de pelo menos a maioria destes animais, bem como uma trilha a marcar o caminho que seguiram até onde hoje são encontrados? Afinal, não é possível que um único animal tenha percorrido, em vida, toda a distância que hoje os separam do monte Ararate. Bem, pelo menos este não deve ter sido o caso do bicho–preguiça das Américas.

A respeito da suposta dispersão dos animais a partir do monte Ararate, vale conferir o que escreveu Richard Dawkins, conforme narrado no vídeo abaixo:




O testemunho de Jesus Cristo

A batida do martelo para os defensores do dilúvio global são as palavras de Jesus Cristo, conforme cito abaixo:

Pois, assim como eram os dias de Noé, assim será a presença do Filho do Homem. Porque naqueles dias antes do dilúvio as pessoas comiam e bebiam, os homens se casavam e as mulheres eram dadas em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e não fizeram caso, até que veio o dilúvio e varreu a todos eles; assim será na presença do Filho do Homem (Mateus 24:37-39).

Não tenho muito a dizer sobre as palavras acima, mas o que digo a seguir é para mim muito importante.

Se Jesus realmente é quem dizem que ele é, então ele não disse as palavras que se lhe atribuem. Mas se ele realmente disse tais palavras, então ele não é quem dizem que ele é.


Minha conclusão

As muitas lendas de dilúvio não deixam dúvidas de que dilúvios ocorreram pelo mundo inteiro. É até aceitável que essas lendas possam ser tomadas como indícios de um dilúvio global. Porém, um dilúvio global deixaria evidências geológicas inconfundíveis, além do que, uma água suficiente para cobrir o Himalaia não sumiria assim, sem deixar sinais sobre onde está. E se toda a população humana, bem como todos os animais, foram uma população bem reduzida, em um passado tão recente, isso estaria indelevelmente registrado na genética de todas as espécies, mas nada disso é percebido. Estes e outros fatores são provas incontestáveis de que um dilúvio global jamais ocorreu, pelo menos não tão recente quanto há 4500 anos.

Apesar dessas provas, não tão evidentes, mas disponível a todos que estão dispostos à pesquisa, a internet está abarrotada de artigos e vídeos de pregadores das mais diversas denominações, os quais ecoam um dilúvio mitológico como aviso de que um dia virá o fim para todo aquele que não se curvar ao deus deles.

Eu até nem me importo que as pessoas acreditem em tamanho disparate, pois eu mesmo um dia acreditei nesse e em outros absurdos; mas deixa-me muito triste saber que lideranças religiosas estão dispostas a distorcer a ciência para fazer parecer que ela diz o que de fato não diz.  Naturalmente, ao fazerem uso da ciência, essas lideranças querem dar um ar vistoso às suas crenças; mas se o fazem mediante “fraude”, aos olhos dos críticos soa exatamente o contrário, que tais crenças são tão infundadas que é preciso distorcer a ciência para que elas pareçam ter algum sentido lógico.


Do meu ponto de vista, e em resultado do que pude investigar até agora, as religiões cristãs, quaisquer delas, longe estão de poder pousar como detentoras do caminho da salvação – ainda que muitas delas o façam!  E visto que geralmente usam a Bíblia para embasar suas crenças, considero que é um atalho examinar a Bíblia para poder entender exatamente no que creem cada uma delas. Os assuntos são muitos, evidentemente, mas há que se começar por alguns deles. O ensino da vez foi o dilúvio e, à base, do que escrevi neste artigo, estou seguro de que estou no caminho certo na minha busca pela verdade. Pode ser que a verdade eu jamais encontre, mas, quanto às mentiras, mil caem ao meu lado, e dez mil, à minha esquerda.

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Devido às muitas evidências contrárias a um dilúvio global, cresce o número de pessoas que reinterpretam Gênesis e dizem que Moisés pode estar referindo-se apenas a um dilúvio local. Esta possibilidade foi examinada aqui

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Última atualização em 5 de novembro de 2017. 



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